Durante décadas, a gestão da reputação corporativa foi uma disciplina focada em influenciar stakeholders humanos: clientes, investidores, reguladores e a imprensa. Agora, um novo ator, imune a almoços de relacionamento e conversas em off, entra em cena: o agente de inteligência artificial. A reflexão, apresentada em artigo de opinião no Brazil Journal, aponta para uma transformação fundamental na forma como empresas serão avaliadas e escolhidas.

A tese é que a ascensão de assistentes de IA, que já começam a agir em nome dos usuários, eleva a reputação de uma percepção intangível para uma infraestrutura de decisão. Não se trata apenas de otimizar conteúdo para ser uma resposta em um chatbot — o chamado AEO, ou Answer Engine Optimization. O desafio é mais profundo: construir um corpo de evidências digitais que gere confiança em um sistema não-humano, capaz de cruzar informações em uma escala sem precedentes.

O fim da narrativa descolada

O novo stakeholder algorítmico não pode ser persuadido da mesma forma que um jornalista ou analista. Sua "percepção" é formada pela análise agregada de todos os sinais disponíveis: o que a empresa publica em seu site, o que dizem seus executivos, os dados de seus relatórios financeiros, mas também o que clientes reclamam nas redes sociais e o que a imprensa investigativa revela. A capacidade de sustentar uma narrativa que não encontra lastro em ações concretas e dados verificáveis tende a diminuir drasticamente.

Este não é um cenário futurista. Segundo uma pesquisa da Bain citada no artigo, 77% dos consumidores brasileiros já utilizam alguma forma de IA, e 43% recorrem a LLMs para avaliar produtos e serviços. A busca deixa de ser uma simples consulta por palavras-chave para se tornar um diálogo exploratório, onde a IA ajuda o usuário a formar opinião. Nesse contexto, a qualidade e a consistência do ambiente informacional de uma marca tornam-se um fator de competitividade direta.

Infraestrutura de confiança

Leandro Modé, diretor de comunicação da Vale e autor da análise, argumenta que a consequência se estende para além do varejo. À medida que agentes de IA participam de decisões de compra B2B, seleção de fornecedores ou análise de investimentos, a clareza e a veracidade da presença pública de uma companhia viram um ativo estratégico. Uma empresa sobre a qual há informação abundante, consistente e confiável parte de uma posição de vantagem em relação a outra cuja pegada digital é fragmentada ou contraditória.

A máquina não conhece apenas a história que a empresa conta sobre si. Ela pode — e vai — confrontá-la com as histórias que todos os outros contam e com os dados disponíveis sobre o que a empresa de fato faz. A tarefa, portanto, não é encontrar atalhos para "agradar ao algoritmo", mas sim garantir a consistência entre o discurso e a prática.

A questão fundamental para lideranças de comunicação e marketing deixa de ser apenas como uma marca conquista a preferência de uma máquina. A pergunta mais estratégica é como uma organização constrói confiança em um mundo onde humanos e máquinas tomarão decisões em conjunto. A má notícia, como aponta o autor, é que o algoritmo já terá lido tudo sobre sua empresa antes mesmo de a reunião começar. A boa notícia é que a integridade, ao que tudo indica, será um excelente negócio.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech