Sharjah, um dos sete emirados que compõem os Emirados Árabes Unidos, anunciou planos para a construção do primeiro museu de artesanato contemporâneo da região do Golfo. Batizado de Irthi Museum, o projeto tem inauguração prevista para 2029 e abrigará uma coleção permanente de peças de toda a região, segundo reportagem da publicação especializada ARTnews.
A iniciativa não é um fato isolado. Ela se insere em uma conhecida estratégia dos países do Golfo de investir massivamente em infraestrutura cultural como ferramenta de soft power e diversificação econômica. Mais do que um repositório de artefatos, o museu se propõe a ser uma ponte entre o passado e o futuro, preservando técnicas ancestrais e, ao mesmo tempo, estimulando novas práticas criativas.
Entre a Tradição e o Futuro
A missão do Irthi Museum é dupla: documentar e preservar habilidades tradicionais — como a tecelagem com folhas de palmeira (safeefah), o bordado (talli) e a marcenaria — e oferecer um espaço para pesquisa e desenvolvimento de novas expressões artesanais. O projeto é uma extensão do trabalho do Irthi Contemporary Crafts Council, conselho estabelecido em 2016 e que já promove programas de capacitação para artesãs locais, conectando-as a designers internacionais.
A diretora-geral do conselho, Reem BinKaram, descreveu o museu como uma “ponte viva entre técnicas de herança e expressões contemporâneas”, reforçando a visão de que o artesanato não deve ser tratado como uma “relíquia preservada, mas como um legado vibrante e em evolução”. A leitura aqui é que Sharjah, já designada pela UNESCO como Cidade Criativa de Artesanato e Arte Folclórica, busca consolidar essa vocação com uma instituição de peso.
Um Ecossistema Criativo
O museu não será uma estrutura isolada. Ele funcionará como âncora para o Sharjah Creative Quarter, um novo distrito criativo em construção. O complexo, desenhado pelo escritório Taller de Arquitectura de Mauricio Rocha, abrigará outras instituições, como um laboratório de moda, um centro de design e um campus da L’École, School of Jewelry Arts, de Paris. A ambição é clara: criar um ecossistema completo, não apenas um ponto turístico.
Essa abordagem integrada sugere uma estratégia para tornar a herança cultural economicamente sustentável, inserindo o artesanato local em cadeias de valor globais, como o design e a moda de luxo. A colaboração com parceiros internacionais, tanto na arquitetura quanto no design de produtos, sinaliza a intenção de projetar a produção local para um mercado global exigente.
O projeto do Irthi Museum é um passo calculado na construção de uma identidade pós-petróleo para a região. O desafio, como em outras iniciativas monumentais do Golfo, será garantir que a instituição se mantenha relevante e dinâmica, transformando investimento em capital cultural genuíno. A resposta começará a ser delineada em 2029.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





