O corredor de uma loja de departamentos parece, à primeira vista, uma instalação de arte monocromática onde cada detalhe — das prateleiras às roupas — pulsa em um único tom de amarelo ou verde. É nesta San Francisco surrealista, concebida sob a lente do diretor Boots Riley, que a figurinista Shirley Kurata constrói o universo visual de 'I Love Boosters'. Longe da estética desaturada que domina as grandes produções contemporâneas, o filme se impõe como uma explosão cromática, utilizando a cor não apenas como adorno, mas como uma fronteira geográfica e ideológica entre os personagens.
A arquitetura da cor
Para Kurata, a cor atua como o principal divisor de águas entre as múltiplas dimensões do longa. A colaboração com o designer de produção Christopher Glass foi fundamental para garantir que a saturação fosse absoluta, exigindo o uso de amostras reais de tinta para alinhar o figurino ao ambiente. Essa precisão técnica transforma as lojas de departamentos em personagens próprios, onde a uniformidade serve para destacar o absurdo do consumo corporativo. Em um mercado onde blockbusters frequentemente optam por paletas cinzentas e iluminação plana, a escolha pelo maximalismo visual de Kurata funciona como um ato de rebeldia estética.
O contraste com a indústria
O público moderno, exausto de produções que parecem ter sido drenadas de sua vitalidade, reagiu com fervor à estética do filme desde os primeiros teasers. A crítica recorrente a filmes que negligenciam a cor, como o recente remake de 'Moana' ou o universo cinematográfico da Marvel, evidencia um desejo latente por uma cinematografia que abrace o espectro completo. Kurata, que já havia explorado a complexidade visual em 'Everything Everywhere All at Once', enxerga na saturação uma ferramenta para construir mundos que se sentem mais vivos e, paradoxalmente, mais reais do que a realidade desbotada de Hollywood.
Sátira e engajamento social
O figurino em 'I Love Boosters' vai além da estética; ele serve como uma crítica direta às engrenagens da moda. Ao vestir o grupo de saqueadores liderado por Corvette com roupas que variam do estilo 'Kawaii' a máscaras de desenhos animados, o filme subverte a própria natureza da mercadoria. Kurata utiliza seu profundo conhecimento sobre os problemas do setor para traduzir a desigualdade e o desperdício em escolhas visuais contundentes, tornando a vestimenta um reflexo das tensões entre o luxo das marcas e as condições brutais de suas fábricas.
O legado do visual
O que permanece após os créditos finais é a provocação sobre como consumimos o que vemos. Se a cor pode ser usada para mascarar a exploração ou para evidenciar a resistência, o design de figurino deixa de ser um acessório para se tornar a própria espinha dorsal da narrativa política do filme. Resta saber se o sucesso visual de 'I Love Boosters' será apenas uma exceção à regra ou se a indústria aprenderá, finalmente, a valorizar a saturação como uma linguagem de verdade.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company





