O Arizona, epicentro da nova corrida americana para revitalizar sua indústria de semicondutores, está prestes a perder mais de um quarto da água que retira anualmente do Rio Colorado. A decisão, tomada pelo governo federal em resposta a uma seca histórica que assola o oeste do país, impõe um choque de realidade sobre um dos projetos de política industrial mais ambiciosos das últimas décadas.

A medida atinge em cheio o estado que abriga planos de expansão bilionários de gigantes como a taiwanesa TSMC e a americana Intel. Conforme reportagem do The Verge, o que se desenha é uma colisão direta entre a ambição geopolítica de garantir a soberania na produção de chips e os limites físicos impostos pelo clima.

A geografia do capital

A escolha do Arizona como polo para a manufatura de chips não foi acidental. O estado já possuía um ecossistema industrial estabelecido e ofereceu incentivos robustos. Contudo, a decisão de instalar uma das indústrias mais intensivas em consumo de água no meio de um deserto expõe uma aposta arriscada. A fabricação de um único wafer de silício pode consumir milhares de litros de água ultrapura. Com a seca do Rio Colorado atingindo níveis sem precedentes, a sustentabilidade dessa aposta está agora em xeque.

Um risco não calculado?

Para as empresas, o cenário implica em custos operacionais crescentes e riscos na cadeia de suprimentos que o capital de risco e os conselhos de administração podem ter subestimado. Para o governo americano, a crise hídrica questiona a viabilidade de sua estratégia de "reshoring", que depende de concentrar produção em locais geograficamente vulneráveis. A disputa pela água no Arizona não é apenas um problema local; é um estudo de caso sobre como a crise climática se tornará um fator decisivo na reconfiguração das cadeias de valor globais.

O futuro da soberania tecnológica, ao que tudo indica, dependerá não apenas de capital e vontade política, mas da gestão de recursos naturais cada vez mais escassos. A questão para o Arizona não é se as fábricas de chips podem ser construídas, mas por quanto tempo elas poderão operar de forma sustentável.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Verge