A New York Magazine, em sua recente edição sobre "poder", buscou dar rosto à nova geração de líderes e pensadores da inteligência artificial. Para ilustrar a reportagem "Tão Poucas Pessoas, Tanta Influência", que destaca 26 engenheiros, fundadores e intelectuais cujas contribuições para o campo da IA superam em muito seu reconhecimento público, a publicação convocou o artista Simon Denny. O artista, radicado em Berlim e conhecido por sua exploração das dinâmicas entre arte, tecnologia e poder, empregou inteligência artificial para criar uma série de retratos com uma estética peculiar.
A Estética do Poder Desconhecido
Os "Technologists Portraits", como a série foi batizada, apresentam figuras sorridentes em cenários simulados, capturados em uma paleta de cores saturada e com o aspecto granulado e distorcido característico de mídias antigas, como fitas VHS. Essa escolha estilística proposital contrasta fortemente com a influência e o poder exercido por esse grupo de especialistas em IA, em sua maioria anônimos para o grande público. A distorção visual e a saturação das imagens servem como uma metáfora para as transformações rápidas e, por vezes, imprevisíveis que essa tecnologia está promovendo. Denny busca, com essa abordagem, mapear e desempacotar as narrativas de uma comunidade que está ativamente moldando nossa experiência em um mundo em constante mudança tecnológica, onde as distorções são traços das transformações iminentes e de seus agentes.
A IA como Ferramenta e Tema
A decisão de Denny de usar IA para gerar os retratos não é apenas uma escolha técnica, mas também conceitual. O artista tem um histórico de investigar a relação entre arte e tecnologia, explorando como novas ferramentas e plataformas reconfiguram a produção artística e a percepção cultural. Em trabalhos anteriores, como sua exposição "Secret Power" na 56ª Bienal de Veneza, Denny utilizou servidores de internet como vitrines para expor informações vazadas sobre agências de inteligência. Sua arte frequentemente disseca a forma como a tecnologia é apresentada, consumida e como ela influencia as estruturas de poder. Ao aplicar IA para retratar os arquitetos da própria IA, Denny cria um diálogo reflexivo sobre a natureza da criação, da influência e da representação na era digital.
O Mito e a Normalização da IA
Denny expressou interesse nas histórias contadas pelas pessoas que desenvolvem as tecnologias que eventualmente utilizamos. Ele reconhece a dificuldade em discernir entre o mito e a verdade quando se lida com o aprendizado de máquina, uma área que permanece desconhecida mesmo para seus criadores. "É por isso que a criação de mitos é tão importante no espaço da tecnologia. Como tudo isso se torna familiar e normalizado?", questionou o artista. Essa busca por familiaridade e normalização é um dos motores da influência desses novos atores da IA. Ao normalizar e tornar tangível o poder por trás da IA, as imagens de Denny convidam o público a confrontar e compreender melhor as forças que estão redefinindo o cenário tecnológico e social global.
A utilização de IA na arte, especialmente para retratar os próprios criadores dessa tecnologia, levanta questões sobre autoria, representação e a própria natureza da inteligência. A estética VHS, ao evocar nostalgia e um senso de registro histórico, adiciona uma camada de ironia e profundidade à representação desses indivíduos que estão, simultaneamente, criando o futuro e sendo moldados por ele.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





