A artista holandesa Simone Post transformou os salões do histórico Palazzo Contarini Polignac, em Veneza, em um cenário de nostalgia tátil. Como parte da exposição 'Still Joy – From Ukraine into the World', evento colateral da 61ª Bienal de Veneza, a instalação 'She Knew She/It/They Would Melt' utiliza candelabros, retratos e objetos decorativos inteiramente construídos com doces para abordar temas de sobrevivência emocional e memória infantil.
A obra, apresentada pelo PinchukArtCentre, insere-se em um contexto de reflexão sobre a resiliência humana. Segundo o material da exposição, a escolha de materiais perecíveis não é acidental, mas uma afirmação sobre a natureza transitória da alegria em um mundo marcado por conflitos e deslocamentos.
A materialidade da memória
A prática de Simone Post, que transita entre o design e a escultura, sempre demonstrou um interesse profundo pelo potencial emotivo dos materiais. Tendo crescido em um ambiente familiar marcado pela costura e pelo artesanato, a artista desenvolveu uma sensibilidade aguçada para o toque e a produção manual. No Palazzo Contarini Polignac, essa bagagem se traduz em ambientes onde o cotidiano é transfigurado.
O uso de doces como matéria-prima cria uma tensão imediata entre a doçura da infância e a instabilidade da matéria. Ao suspender estruturas que inevitavelmente irão colapsar ou derreter, Post propõe uma meditação sobre a impermanência. A instalação não busca a preservação eterna, mas sim a criação de um refúgio temporário onde a vulnerabilidade é aceita como parte integrante da experiência humana.
Mecanismos de resistência emocional
A escolha estética de Post funciona como um contrapeso aos relatos de guerra e trauma que permeiam a exposição principal. Em um ambiente onde o sofrimento é frequentemente documentado de forma crua, a instalação de candelabros de açúcar oferece uma forma de resistência através da suavidade. A fragilidade dos objetos espelhados e das formas retorcidas de bala convida o visitante a habitar um espaço onde a ternura é uma escolha consciente.
O mecanismo da obra repousa na aceitação do fim. Ao criar algo que se sabe destinado a desaparecer, a artista questiona se a alegria necessita de permanência para ser significativa. O processo de dissolução dos doces torna-se, na prática, uma metáfora para a própria memória, que raramente permanece intacta, sobrevivendo apenas através de fragmentos e impressões sensoriais.
Implicações para o ecossistema artístico
Para o mercado de arte e curadores, a obra de Post destaca o crescente interesse por instalações que priorizam a experiência sensorial sobre a aquisição de objetos duráveis. Em um cenário global onde a instabilidade política afeta diretamente a produção cultural, o trabalho ressoa como uma proposta de que a arte pode atuar como um bálsamo, ainda que efêmero. A conexão com o ecossistema brasileiro é imediata, dada a tradição de artistas que utilizam materiais orgânicos e transformáveis como forma de crítica social e poética.
Além disso, a colaboração com o PinchukArtCentre sublinha o papel das instituições de grande porte em fornecer plataformas para que artistas contemporâneos explorem narrativas de trauma sem recorrer ao espetáculo da dor. A instalação estabelece um diálogo necessário entre a arquitetura clássica veneziana e a fragilidade do material contemporâneo.
Perspectivas e incertezas
O que permanece em aberto, após a visita à instalação, é o papel da arte como abrigo em tempos de crise contínua. A obra de Post não oferece respostas definitivas, mas abre um campo de questionamento sobre como podemos preservar nossa capacidade de sentir alegria sem nos tornarmos insensíveis ao que ocorre ao redor.
O futuro da obra, que reside na sua própria destruição, continuará a ser observado à medida que o tempo de exposição em Veneza avança. A pergunta sobre quanto tempo a suavidade pode resistir antes de ceder à realidade é, talvez, a questão central que a artista deixa para o público.
A fragilidade da instalação é o seu maior trunfo, forçando o observador a confrontar a finitude da beleza e o valor do momento presente. A permanência, neste caso, parece ser o oposto do objetivo final, que é a experiência compartilhada de um instante de doçura antes do inevitável. Com reportagem de Designboom
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