No monumental Raphael Court do museu V&A, em Londres, as modelos de Sinéad O’Dwyer quebraram o ritmo tradicional das passarelas. Em vez de uma marcha apressada, elas caminhavam, pausavam e se dissolviam em movimentos esculturais, transformando o desfile em uma performance. O evento fez parte da prestigiada série 'Fashion in Motion' do museu, que já recebeu nomes como Alexander McQueen e Vivienne Westwood.

A apresentação, segundo reportagem da revista i-D, marcou a incursão de O’Dwyer na moda de festa — ou eveningwear. Para uma designer cuja carreira se consolidou na criação de peças para corpos sistematicamente ignorados pela moda de luxo, o movimento é uma progressão natural e um desafio direto a uma das categorias mais excludentes da indústria.

A coreografia do conforto

A proposta de O’Dwyer reside em uma aparente contradição: criar peças de altíssima complexidade técnica que resultam em conforto e facilidade absolutas. “Eu queria fazer uma roupa de festa que fosse simplesmente... de vestir e sair”, afirmou a designer à publicação. Essa filosofia rejeita a ideia de que luxo é sinônimo de desconforto. As peças se esticam e contornam o corpo em vez de restringi-lo, com detalhes como shorts atléticos ocultos sob camadas translúcidas, permitindo que as modelos se ajoelhassem ou movessem livremente pelo chão do museu sem sacrificar a elegância.

A centralidade do movimento foi garantida pela colaboração com a coreógrafa Grace Nicol. A escolha de escalar dançarinos ao lado de modelos não foi um artifício estético, mas um teste de resistência e funcionalidade para cada peça. Ao observar os performers se movendo, ficava claro que não se tratava de roupas que exigem fragilidade de quem as veste, mas de roupas desenhadas para sobreviver à vida real. A complexidade artesanal, com referências a nós de shibari e modelagem direta no manequim, nunca é meramente decorativa; cada detalhe tem uma função.

Ao final, com a performance ao vivo do grupo White Boys, a distinção entre modelo e dançarino havia desaparecido. Talvez esse seja o ponto central do trabalho de O’Dwyer: a moda de ocasião não deve ser um artefato para ser admirado à distância, mas uma ferramenta para se viver a celebração. Uma roupa feita para o movimento, e não para a imobilidade do pedestal.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · i-D