A exploração de trabalhadores está profundamente enraizada no sistema alimentar global, afetando cerca de 1,4 bilhão de pessoas que produzem, processam, distribuem e entregam alimentos. Esses indivíduos frequentemente recebem baixos salários, têm pouca proteção e estão vulneráveis a abusos. A crise climática e a crescente crise de custo de vida estão intensificando essas pressões, de acordo com um relatório do International Panel of Experts on Sustainable Food Systems (IPES-Food). As origens dessa exploração remontam ao colonialismo, à expropriação de terras, ao trabalho forçado e a sistemas de trabalho racializados que historicamente prejudicaram comunidades indígenas em todo o mundo.
Raízes Históricas e Colonialismo
O relatório destaca que as forças motrizes por trás da exploração no sistema alimentar têm suas raízes em práticas coloniais e sistemas de trabalho que desvalorizam e oprimem. Nos Estados Unidos, por exemplo, a fundação do país sobre o roubo de terras e a importação de pessoas escravizadas para viabilizar a agricultura e o trabalho agrícola a baixo custo deixou um legado persistente. Povos indígenas continuam particularmente vulneráveis ao deslocamento, e as pressões da agricultura industrial e das mudanças climáticas minam seus meios de subsistência tradicionais. Para aqueles forçados a deixar suas terras, o trabalho exploratório e mal remunerado torna-se, muitas vezes, a única opção disponível, como exemplifica a situação de mulheres que buscam sustentar seus filhos.
Impactos das Mudanças Climáticas e Crise de Custo de Vida
As mudanças climáticas exacerbam a vulnerabilidade dos trabalhadores do setor alimentício. Em cidades como Nova York, entregadores — muitos dos quais são indígenas da Guatemala e do México — enfrentam condições extremas, desde tempestades de neve e inundações até incêndios, para garantir que os habitantes da cidade recebam seus pedidos. Ligia Guallpa, co-fundadora do Worker’s Justice Project e Los Deliveristas Unidos, ressalta que, enquanto esses trabalhadores estão na linha de frente respondendo à crise climática, eles próprios carecem de cuidados básicos e segurança. A crise de custo de vida global apenas agrava a situação, tornando o trabalho precário ainda mais insustentável para milhões.
Desvalorização do Conhecimento e Discriminação
O conhecimento agrícola indígena e intergeracional, que inclui habilidades valiosas como o cultivo de plantas medicinais e culturas resistentes à seca, é frequentemente minimizado ou descartado como "não qualificado". Essa desvalorização obscurece a expertise e justifica salários mais baixos. Além disso, trabalhadores indígenas enfrentam discriminação severa e abuso, como serem comparados a babuínos ou não receberem utensílios adequados para comer. Teresa Chemosop, coordenadora da East Africa Indigenous Women-Led Assembly, aponta que, além dos baixos salários e longas jornadas, a discriminação é uma realidade constante.
Caminhos para um Sistema Mais Justo
O relatório defende um reconhecimento formal da expertise dos trabalhadores, juntamente com esforços para fortalecer seus direitos e proteções. Cerca de 60% a 80% dos trabalhadores do setor alimentício são empregados informalmente, ganhando metade daqueles com emprego convencional. Aproximadamente 30% ganham menos que um salário digno, e cerca de 2,1 milhões trabalham em condições análogas à escravidão. Para construir um sistema mais justo, é crucial valorizar o trabalho alimentar em todas as suas formas, fortalecer o poder dos trabalhadores, estabelecer proteções no local de trabalho e controlar o poder corporativo. A ideia de que melhores condições de trabalho levariam a preços mais altos de alimentos é um falso dilema; é possível gerenciar ambos, especialmente diante de uma crise climática que não dá sinais de melhora.
Em Nova York, a organização Los Deliveristas Unidos demonstra que é possível melhorar a remuneração e as condições de trabalho para trabalhadores de aplicativos, além de regular corporações multibilionárias. A organização de trabalhadores oferece um vislumbre do que pode ser alcançado com poder coletivo e advocacia, mostrando que um sistema alimentar mais equitativo é viável.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Grist




