O mundo o conhece como o barão das telecomunicações, o homem que conectou a América Latina. Mas a fundação do império de Carlos Slim não foi erguida com fibra ótica, e sim com concreto e aço. Décadas antes de a América Móvil se tornar um colosso continental, um jovem Slim, aos 25 anos, fincava suas primeiras estacas no mercado imobiliário e na construção civil. Foi ali, com a Inmobiliaria Carso, fundada em 1966, que a lógica de seu conglomerado começou a tomar forma.

Recentemente, em uma rara reflexão sobre essa trajetória, o empresário listou as nove obras que considera mais emblemáticas em sua carreira, segundo reportagem do portal mexicano Expansión. A seleção não é uma simples lista de ativos valiosos, mas um mapa de sua filosofia empresarial: a transformação de espaços — sejam eles degradados, obsoletos ou simplesmente subutilizados — em ativos de longo prazo. De um lixão a céu aberto ao templo do futebol europeu, os projetos revelam um Slim que pensa cidades, cultura e, acima de tudo, permanência.

A cidade como ativo

A tese central que emerge da escolha de Slim é a da requalificação. Em vez de focar apenas em empreendimentos greenfield, boa parte de seus projetos mais celebrados envolve a recuperação de passivos urbanos e ambientais. O caso mais notório talvez seja a Ciudad Jardín Bicentenario, em Nezahualcóyotl, Estado do México. O projeto, inaugurado em 2009, converteu o que foi por décadas o lixão do Bordo de Xochiaca em um complexo de 150 hectares com áreas comerciais, esportivas e de serviços. Onde havia um problema ambiental, Slim viu uma oportunidade de regeneração urbana e social.

Essa mesma lógica se aplica à revitalização do Centro Histórico da Cidade do México, um esforço iniciado no começo do século para resgatar o coração da capital, considerado Patrimônio da Humanidade. Através de sua fundação, Slim liderou um movimento que restaurou edifícios e reativou a vida econômica e cultural da área. Outro exemplo é a Plaza Inbursa, ao sul da capital. O shopping center nasceu da reconversão de uma antiga fábrica de papel, a Loreto y Peña Pobre, preservando parte da arquitetura industrial como memória do local. Em todos os casos, a estratégia é a mesma: identificar valor latente e usar capital e engenharia para destravá-lo.

Do legado pessoal ao palco global

Se uma parte da lista revela o urbanista pragmático, a outra expõe o construtor de símbolos. O mais pessoal deles é o Museu Soumaya. Desenhado pelo arquiteto Fernando Romero e inaugurado em 2011, o edifício escultural, coberto por 16 mil placas de alumínio, é mais que um marco arquitetônico na Cidade do México. Nomeado em homenagem a sua falecida esposa, Soumaya Domit, e abrigando sua vasta coleção de arte com acesso gratuito, o museu é a face pública e cultural do império, um gesto de legado que transcende o balanço das empresas.

A ambição, contudo, não se restringe às fronteiras mexicanas. Através da FCC Construcción, empresa espanhola controlada por ele, Slim se projetou no cenário global ao assumir obras de enorme prestígio. A modernização do estádio Santiago Bernabéu, casa do Real Madrid, e a construção do novo estádio do Atlético de Madrid são demonstrações de capacidade técnica e poder de fogo. Ao participar da renovação dos lares de dois dos maiores clubes de futebol do mundo, Slim não está apenas executando um contrato de construção; está associando seu nome a marcas de alcance planetário, em uma arena onde a paixão e o prestígio contam tanto quanto o orçamento.

Para um homem cujo poder foi construído sobre a infraestrutura muitas vezes invisível das telecomunicações, esses projetos de tijolo e argamassa oferecem um tipo diferente de legado. Redes de telefonia se tornam obsoletas, tecnologias são superadas. Um museu ou um estádio, por outro lado, são monumentos físicos, marcos na paisagem que contam uma história de poder, visão e permanência. A questão que fica é qual história Carlos Slim, o construtor, quer que essas estruturas contem daqui a um século.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Expansión MX