O romance, em sua essência, é um espelho da sociedade e de suas transformações tecnológicas. Da revolução da imprensa à ascensão das metrópoles e à complexidade da produção industrial, cada avanço moldou a forma como os escritores narram o mundo e a experiência humana. A evolução da narrativa realista, por exemplo, pode ser traçada paralelamente aos avanços em áreas como religião, finanças e engenharia, pois todas essas inovações alteraram fundamentalmente nossa percepção e interação com a realidade.

Com a chegada da internet e, mais especificamente, dos smartphones, os romancistas contemporâneos enfrentam um novo dilema: como representar de forma autêntica a onipresença do digital em suas obras? A autora Ankur Thakkar, em seu romance "Blow Yourself Up", aborda essa questão ao incluir textos, notificações e comandos de voz em sua narrativa. No entanto, em vez de utilizar artifícios visuais como bolhas de chat ou tratamentos de texto distintos, Thakkar optou por integrar esses elementos de forma orgânica à prosa tradicional, buscando borrar a linha entre a vida real e a vida na tela.

A tecnologia como motor da narrativa

A história da literatura de ficção está intrinsecamente ligada à história da tecnologia. A ascensão das grandes cidades, por exemplo, deu origem à figura do "flâneur" de Baudelaire, um observador urbano que se movia pelas ruas em meio à agitação metropolitana. Da mesma forma, os trens transcontinentais tornaram as elipses narrativas no espaço e no tempo mais aceitáveis para o leitor. A complexidade crescente dos sistemas de produção industrial, que tornou impossível para um indivíduo compreender totalmente o funcionamento do mundo, impulsionou o foco para o interior, dando origem ao discurso indireto livre, uma ferramenta que dominou a escrita moderna.

Experimentações com o digital

Diante da era da internet, autores têm explorado diversas formas de incorporar o digital em suas obras. Alguns, como Calvin Kasulke em "Several People Are Typing", constroem romances inteiramente a partir de mensagens de Slack. Jennifer Egan, com seu conto "Black Box", entregou a história em 607 tweets. Outros, como Patricia Lockwood e Jenny Offill, criam obras que "parecem online", com parágrafos curtos, espaços em branco abundantes e justaposições inusitadas. No entanto, Thakkar argumenta que essas abordagens não se encaixavam em sua visão para "Blow Yourself Up", pois a história é contada em prosa sequencial e não se propõe a ser uma obra construída a partir de artefatos digitais.

Integrando o digital à interioridade

A tese central de Thakkar em "Blow Yourself Up" é que "tudo acontece tanto". Memes são inseridos em conversas, mensagens de texto adquirem a mesma importância de diálogos presenciais, e o conteúdo dos smartphones se mescla intrinsecamente com o mundo ao redor. A autora defende a "realidade incorporada", mas reconhece que o epímero digital é tão parte da experiência humana quanto o físico. Ao apresentar as notificações e interações digitais de forma tão despojada quanto o restante da prosa, ela busca refletir como realmente vivenciamos o mundo digital: sem a percepção das "bolhas" ao redor das mensagens, simplesmente lendo-as.

O futuro da narrativa na era dos smartphones

A abordagem de Thakkar visa complicar a suposta fronteira entre o digital e o real, integrando ambos à interioridade dos personagens. Em uma cena de seu romance, a protagonista Payal, em um encontro, vê sua fama online crescer com uma notificação, enquanto tenta manter uma conversa com seu par. Essa dualidade, a coexistência de mundos, é o cerne da experiência contemporânea. "Blow Yourself Up" se propõe a ser uma história de amor que acompanha a evolução da internet, de "brinquedo" a "utilidade" e, por fim, a um "inferno". Se a representação for bem-sucedida, o leitor sentirá a internet tão comum quanto os "portais de vidro em nossos bolsos", permitindo que a ficção se concentre em quem somos e como mudamos por causa dela.

Com reportagem de Brazil Valley

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