O arquiteto chileno Smiljan Radic desconstrói ativamente o romantismo associado à gênese do projeto arquitetônico. Em entrevista recente sobre seu processo criativo, Radic rejeitou o clichê do profissional que chega a um terreno vazio para, a partir do zero, descobrir a vocação do espaço. Em vez de uma página em branco — condição que afirma lhe causar extrema angústia —, ele relata chegar aos locais com um repertório de cerca de dez projetos não construídos, prontos para serem deformados e adaptados às demandas do cliente e da geografia. Consequentemente, o pior cenário para o arquiteto é o cliente que lhe concede liberdade total, eliminando as restrições que servem como ponto de partida prático. Esse método de trabalho se apoia em um armazenamento prévio de ideias e em uma coleção consciente de arquitetura radical europeia dos anos 1950 aos anos 1970.
O pragmatismo contra a invenção formal
A postura de Radic confronta diretamente a formação arquitetônica moderna, que historicamente exigiu do profissional a figura de um criador focado na invenção de novas formas. O arquiteto classifica a tentativa incessante de criar algo inédito como um problema estrutural da profissão, afirmando preferir repetir algo bom a tentar inventar algo novo e ruim. Em suas palavras, é preferível passar por copista a ser visto como um inventor de estupidezes.
Essa franqueza metodológica se materializa em suas próprias obras. Radic cita o projeto de uma casa no sul do Chile onde assumiu, literal e formalmente, vínculos com o trabalho do arquiteto japonês Kazuo Shinohara, deixando a referência explícita inclusive nos textos descritivos para evitar suspicácias. O objetivo final dessa compilação de referências não é a originalidade pela originalidade, mas a produção de um "encantamento" — tanto para o cliente quanto para o próprio arquiteto e para a apresentação pública da obra.
Ele contrasta sua abordagem com a de dois arquitetos chilenos de gerações anteriores, citando projetos como a Casa de Peña e as Termas Geométricas. Para esses profissionais, o processo de construção material e a resolução de erros in loco representam o verdadeiro momento de descoberta. Para Radic, ao contrário, o imaginário do projeto é resolvido rapidamente em sua mente devido ao acervo acumulado, deixando o tempo de maturação estritamente para a execução prática.
A distinção estrutural entre reparar e restaurar
Outro pilar do pensamento de Radic — que ele estrutura em um texto provisoriamente intitulado Se repara en clave año 80 — é a separação conceitual entre restauração e reparo, apoiando-se em leituras do sociólogo Richard Sennett. A restauração é descrita como um trabalho de especialista que busca recuperar a totalidade de um passado, exigindo estudos profundos de estuques e estruturas para reerguer o edifício tal como era. O reparo, por outro lado, foca pragmanticamente em manter algo de pé e garantir a continuidade de sua função, mesmo que isso exija amputar partes da estrutura original.
Radic ilustra o reparo com a analogia de uma torradeira: ao consertá-la, pode-se instalar um circuito mais potente que permita tostar quatro pães em vez de dois, mantendo a função original, mas alterando o objeto. É essa lógica que ele aplica em intervenções em preexistências, como no Museo Chileno de Arte Precolombino, no projeto Naves e em uma casa transparente recente. A ideia é permitir que o edifício continue caindo no tempo, em vez de paralisá-lo.
Para contexto, a BrazilValley aponta que o debate sobre a preservação do patrimônio frequentemente esbarra no peso histórico das estruturas originais, uma tensão que molda políticas urbanas globalmente, embora o arquiteto direcione sua crítica especificamente à realidade de seu país. Radic argumenta que tratar edifícios de 120 anos no Chile como objetos históricos intocáveis é uma atitude sem sentido, visto que essa escala de tempo é ínfima quando comparada a contextos europeus ou asiáticos com milênios de história.
A visão de Smiljan Radic reposiciona o valor da arquitetura contemporânea. Ao abdicar da pressão pela invenção absoluta e adotar a postura de quem adapta, copia o que funciona e repara o que está quebrado, ele propõe uma prática menos centrada no ego do autor. A arquitetura deixa de ser um ato de iluminação isolada no terreno vazio para se tornar um exercício contínuo de edição, onde a utilidade e a continuidade funcional superam a vaidade da forma inédita.
Fonte · Brazil Valley | Architecture




