A estreia de "Maria Antonieta" de Sofia Coppola em 2006 foi marcada por uma recepção gélida, culminando em vaias no Festival de Cannes e uma arrecadação modesta nos cinemas. A própria diretora descreveu o momento como frustrante, dada a dedicação e o trabalho investido na produção. Contudo, o que parecia um fracasso inicial transformou-se, ao longo de duas décadas, em um fenômeno cult, com a obra sendo redescoberta e celebrada por novas gerações.

Recepção inicial e a polêmica das vaias

Na época de seu lançamento, "Maria Antonieta" enfrentou críticas severas e um ceticismo generalizado. A cena mais notória foi a do Festival de Cannes, onde a película foi supostamente vaiada. Sofia Coppola, no entanto, defende que a comoção foi exagerada e atribuída a um pequeno grupo de jornalistas britânicos. Críticos como Roger Ebert questionaram a extensão do protesto, sugerindo que aplausos também ocorreram, e a Variety mencionou vaias com um "acento galo". A própria biografia do festival sobre a diretora menciona uma "ovação do público". A crítica formal, por sua vez, foi implacável, com manchetes como "Um desastre real". Coppola atribui parte dessa recepção negativa ao viés de gênero, sugerindo que muitos críticos homens a descartaram como frívola devido à sua estética feminina e visualmente carregada. A trilha sonora, que misturava artistas como Siouxsie and the Banshees e The Strokes com o cenário da corte de Luís XVI, também gerou estranhamento, apesar de experimentos musicais semelhantes já terem sido vistos em filmes como "Moulin Rouge".

Desempenho comercial e a virada pelo DVD

Em termos de bilheteria, "Maria Antonieta" arrecadou globalmente US$ 60,9 milhões com um orçamento de US$ 40 milhões, um retorno considerado discreto. Nos Estados Unidos, a receita foi de apenas US$ 15,96 milhões. A França, apesar de ser o cenário histórico e ter a rainha retratada com tênis Converse, contribuiu com US$ 7,87 milhões. A Espanha somou US$ 3,3 milhões, superando o Reino Unido. No entanto, o filme começou a ganhar tração após seu lançamento em home video. As vendas de DVD nos Estados Unidos foram estimadas em US$ 16,7 milhões, superando a arrecadação de cinema. Essa performance tardia já indicava um potencial de resgate para a obra.

A ascensão cult nas redes sociais e a edição Criterion

A reinterpretação de "Maria Antonieta" ganhou força significativa com o advento de plataformas digitais como o Tumblr e, mais tarde, o TikTok. Coppola nota que, cerca de dez anos após o lançamento, uma nova geração descobriu o filme através de imagens compartilhadas em plataformas como Tumblr, onde a estética "coquette" e cores pastel se tornaram populares, associadas à cantora Lana Del Rey. Fotos dos bastidores, que mesclavam figurinos de época com elementos modernos como laptops e fones de ouvido, circularam amplamente, alimentando esse culto. Mais recentemente, vídeos verticais com montagens do filme ao som de hip-hop viralizaram no TikTok, ensinados a Coppola por suas filhas. Essa nova onda de reconhecimento culmina agora com a edição em 4K pela prestigiada Criterion, aprovada pela diretora, coincidindo com o interesse da Geração Z em formatos físicos.

O legado de um filme incompreendido

O documentário "Making Marie Antoinette", que acompanha a nova edição do filme, é baseado em 80 horas de filmagem de Eleanor Coppola, mãe da diretora, durante a produção. Curiosamente, o processo de filmagem foi tranquilo, sem os dramas de produções como "Apocalypse Now", dirigido pelo marido de Eleanor. O documentário também revela que a experiência com "Maria Antonieta" levou Sofia Coppola a preferir projetos menores e com equipes reduzidas. A exposição dedicada ao filme no Petit Trianon, em Versalhes, e a edição Criterion solidificam a transformação de "Maria Antonieta" de um filme controverso em uma peça de arte aclamada e influente, provando que a percepção cultural e a apreciação artística podem evoluir significativamente com o tempo e as novas mídias.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka