Uma pesquisa do Instituto Max Planck para a Investigação do Sistema Solar (MPS), na Alemanha, trouxe à tona novas e preocupantes evidências sobre o potencial do Sol. O estudo, publicado na Philosophical Transactions of the Royal Society A, sugere que nossa estrela pode ser capaz de gerar superfulgurações – explosões de radiação com uma intensidade energética colossal, muito superior às erupções solares comuns. A investigação analisou a relação entre manchas solares e a energia liberada em erupções, concluindo que o Sol possui, fisicamente, as condições necessárias para desencadear tais eventos extremos.

Superfulgurações solares têm o poder de liberar uma energia equivalente à de trilhões de bombas de hidrogênio. Até o momento, esses fenômenos foram observados diretamente apenas em estrelas fora do nosso sistema solar. O desafio para os cientistas reside na brevidade do registro instrumental da atividade solar – cerca de sete décadas –, um período insignificante comparado à idade do Sol, estimada em 4,6 bilhões de anos. Nenhuma superfulguração foi registrada durante este curto lapso temporal, forçando os pesquisadores a buscar indícios indiretos para avaliar essa capacidade estelar.

Potencial solar: indícios em outras estrelas e na Terra

Estudos anteriores do próprio MPS já indicavam que estrelas com características semelhantes ao Sol podem experimentar uma superfulguração, em média, uma vez a cada século. Além disso, a Terra guarda registros naturais de intensa atividade solar, como anomalias em isótopos radioativos encontrados em núcleos de gelo e anéis de árvores, associados a fortes bombardeios de partículas solares. Contudo, esses vestígios não confirmam definitivamente a ocorrência de uma superfulguração como causa.

A nova pista: manchas solares e a energia liberada

Para abordar a questão sob uma nova ótica, a equipe liderada por Natalie Krivova utilizou dados do Solar Dynamics Observatory da NASA, coletados entre 2010 e 2016. Os cientistas focaram nas 300 erupções mais intensas registradas nesse período, comparando a energia liberada com o tamanho das regiões ativas de onde se originaram. Essas áreas, caracterizadas por campos magnéticos intensos e complexos, geralmente estão associadas às manchas solares. A análise estatística estabeleceu uma correlação clara entre o tamanho de uma região ativa e a energia que ela pode dissipar.

Implicações para a infraestrutura terrestre

A descoberta é particularmente relevante devido ao impacto que grandes erupções solares podem ter na infraestrutura tecnológica da Terra. Tempestades solares têm o potencial de afetar satélites, redes elétricas, sistemas de comunicação por rádio e navegação. O famoso Episódio Carrington de 1859, embora não classificado como uma superfulguração, causou auroras em latitudes baixas e interrupções nas redes telegráficas da época. A possibilidade de um evento ainda mais energético levanta preocupações sobre a resiliência das nossas tecnologias atuais.

Perguntas em aberto sobre a capacidade do Sol

A pesquisa alemã não especifica quando um evento semelhante poderia ocorrer ou qual a probabilidade exata de sua ocorrência. "Nosso Sol tem o potencial de produzir superfulgurações. Pode gerar manchas solares massivas que, em princípio, podem servir como ponto de partida para os mais extremos surtos de radiação", afirmou Krivova. No entanto, a capacidade teórica não implica iminência. A questão que permanece sem resposta direta é se o Sol, possuindo esse potencial, de fato já o utilizou em seu passado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech