A trajetória literária de Soledad Acosta de Samper, uma das figuras mais prolíficas do século XIX na Colômbia, é marcada por um paradoxo de produtividade e silenciamento. Com vinte e uma novelas e cinco revistas fundadas, Acosta desafiou as expectativas de gênero de sua época, posicionando-se como jornalista e historiadora em um ambiente que relegava mulheres à esfera doméstica. Sua obra mais emblemática, Dolores, publicada em 1867, permanece um estudo de caso fascinante para a crítica literária contemporânea e para a prática da tradução, especialmente por ter sido eclipsada pela recepção massiva de María, de Jorge Isaacs.

A redescoberta de Acosta, impulsionada por pesquisadoras como Monserrat Ordóñez e Carolina Alzate nas décadas de 1980, permitiu que a obra saísse do esquecimento. O desafio atual reside em tratar Dolores não apenas como um artefato histórico, mas como um texto que dialoga com o futuro, revelando as estratégias de resistência política e literária de sua autora contra as normas sociais vigentes.

O ineditismo de um manuscrito traduzido

O que torna Dolores um verdadeiro "unicórnio" na tradução — termo cunhado para descrever a raridade do caso — é a existência de uma versão em inglês do século XIX, cujo tradutor permanece anônimo. Esse documento oferece uma oportunidade rara de observar como a percepção sobre uma escritora colombiana era moldada por lentes externas da época. O tradutor original, por exemplo, não apenas omitiu a terceira parte do livro — composta pelos diários da protagonista — como também alterou descrições físicas, conferindo a Dolores características que não constavam no manuscrito original em espanhol.

Essa omissão da terceira parte não foi apenas uma escolha editorial arbitrária, mas um reflexo da preferência da época por narradores masculinos. Ao remover os diários, o tradutor silenciou a voz direta de Dolores, que até então era mediada pelo relato do primo Pedro. A análise desse material permite compreender as tensões entre a recepção original da obra e o projeto literário de Acosta, que buscava dar agência à sua heroína.

A coautoria como ato de resistência

O aspecto mais notável de Dolores reside no fato de que a própria Soledad Acosta de Samper traduziu, à mão, a parte omitida do livro. Ao revisitar sua obra, Acosta não se limitou a verter o texto para o inglês; ela expandiu a narrativa com paráfrases e passagens novas que conferiram maior complexidade psicológica à protagonista. Esse ato de tradução tornou-se, na prática, um exercício de coautoria, onde a escritora aproveitou a oportunidade para corrigir a estrutura narrativa e garantir que Dolores tivesse a última palavra.

Para um tradutor contemporâneo, lidar com essas camadas significa decidir entre manter os anglicismos e a sintaxe do século XIX ou modernizar o texto. A abordagem adotada recentemente prioriza a preservação das escolhas da autora, mantendo as adições poéticas que enriquecem a psicologia da personagem, enquanto utiliza notas de rodapé para situar o leitor moderno sobre as transformações sofridas pelo texto original.

Implicações para a memória literária

O resgate de Dolores levanta questões fundamentais sobre como o cânone literário é construído e quem tem o poder de decidir quais vozes sobrevivem ao tempo. A omissão deliberada da terceira parte do livro no século XIX ilustra a fragilidade da presença feminina na história da literatura, onde a censura muitas vezes operava através da edição e da tradução. O trabalho da Cita Press — editora independente dedicada a escritoras historicamente marginalizadas — ao dar um novo lar a obras como a de Acosta, reforça a necessidade de circuitos de publicação mais democráticos.

No contexto brasileiro e latino-americano, o caso de Acosta serve como um lembrete da importância de revisitar arquivos esquecidos. A tradução, longe de ser um ato passivo, revela-se aqui como uma ferramenta de recuperação histórica, capaz de devolver a profundidade a obras que foram, por décadas, reduzidas a versões incompletas ou domesticadas.

O futuro da obra de Acosta

O que permanece incerto é o alcance que essa nova edição de Dolores terá em um mercado editorial globalizado. A complexidade da estrutura narrativa, que alterna entre cartas e diários, exige do leitor contemporâneo uma disposição para investigar as camadas de subjetividade que a autora construiu. Observar como o público reagirá a essa "nova" versão, que integra as adições feitas pela própria Acosta, será o próximo passo para consolidar sua posição no cânone.

A redescoberta de Soledad Acosta de Samper não encerra o debate sobre sua importância, mas abre caminhos para novas investigações sobre como a tradução pode atuar como um mecanismo de justiça literária. Ao tratar o texto como um organismo vivo, capaz de ser expandido e revisitado, a prática tradutória garante que a voz de Dolores, finalmente, ressoe sem as mediações impostas pelo passado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub