O ecossistema de startups na Espanha registrou um salto expressivo de quase 40% em apenas um ano, aproximando-se da marca de 5 mil empresas em 2025. Segundo a primeira avaliação contínua da Lei de Startups (Ley 28/2022), o setor demonstra sinais claros de amadurecimento, com um aumento de 46% na geração de empregos desde 2022 e uma vida média das companhias que subiu para 3,5 anos.

Este movimento, validado pelo Foro Nacional de Empresas Emergentes, reflete o impacto direto de políticas públicas voltadas à certificação e desburocratização. A Empresa Nacional de Innovación (ENISA) consolidou um processo de certificação que opera com prazos médios de 45 dias, bem abaixo do limite legal de três meses, facilitando o acesso de mais de 2.100 empresas aos benefícios previstos na norma.

O impacto da regulação no crescimento

A Lei de Startups espanhola, considerada pioneira na União Europeia, tem funcionado como um indutor de competitividade. A duplicação do número de empresas que aplicam o tipo reduzido no Imposto sobre Sociedades entre 2023 e 2024 é um indicador de que os incentivos fiscais estão ganhando tração real. A leitura aqui é que a segurança jurídica, aliada à agilidade administrativa, atua como uma barreira de entrada menor, permitindo que o capital de risco e o talento empreendedor se sintam mais confortáveis ao escalar operações no território espanhol.

Além disso, o ecossistema tem se mostrado um ímã para profissionais globais. As autorizações de residência para talentos internacionais dispararam 286% entre 2020 e 2024, atingindo mais de 91 mil registros. Esse fluxo migratório de qualificação é um pilar fundamental para a resiliência do setor, especialmente diante de uma economia que busca diversificar sua base para além dos setores tradicionais.

Mecanismos de consolidação e desafios

Apesar do crescimento, o desafio de transição de 'startup' para 'scaleup' permanece no radar. A estabilização do investimento acima de 3,1 bilhões de euros é positiva, mas a concentração territorial em Madrid e Barcelona ainda limita o potencial de desenvolvimento regional. A necessidade de descentralizar o acesso a rodadas de financiamento em fases avançadas é um gargalo que o governo espanhol tenta endereçar via cooperação público-privada.

No Brasil, o cenário oferece paralelos interessantes. Embora o Marco Legal das Startups brasileiro tenha estabelecido bases importantes, a experiência espanhola sugere que a eficácia da lei depende menos do texto original e mais da operacionalização contínua. A capacidade de medir e ajustar os incentivos fiscais em tempo real, como feito pela Espanha, é um diferencial competitivo que atrai investidores e talentos, reduzindo a incerteza regulatória que frequentemente trava o ecossistema local.

Implicações para o ecossistema

Para os stakeholders, o cenário aponta para uma maior profissionalização. O fato de 42% das empresas certificadas contarem com mulheres em cargos de direção é um avanço, embora a equidade de gênero continue sendo um desafio estrutural. A harmonização com marcos regulatórios europeus, como o Data Act e o DMA, também impõe uma carga de conformidade que as startups precisam internalizar cedo para escalar internacionalmente.

O mercado brasileiro, que também busca se posicionar como um hub de inovação na América Latina, observa com atenção essa transição. A lição espanhola é que a maturidade do ecossistema não se mede apenas pelo número de CNPJs, mas pela capacidade de sobrevivência das empresas e pela integração do setor tecnológico com a economia tradicional, que já apresenta 74% de intensidade digital na Espanha.

Perspectivas e incertezas

O futuro próximo exigirá clareza sobre a sustentabilidade das rondas de financiamento em um cenário global de maior seletividade de capital. A questão central é se o crescimento observado será acompanhado por uma maior diversidade geográfica e de gênero, ou se o ecossistema ficará restrito a polos de inovação já consolidados.

O acompanhamento dos próximos ciclos da avaliação oficial será decisivo para entender se o modelo de incentivos espanhol é replicável em larga escala ou se depende de condições macroeconômicas específicas da Zona do Euro. O setor aguarda para ver se a simplificação administrativa continuará sendo a prioridade da agenda pública diante das novas exigências de conformidade digital.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España