A recente exposição de Steve McQueen no Guggenheim Bilbao, intitulada "66-76-26", apresenta uma instalação sonora que entrelaça as vozes de Nina Simone e David Bowie, interpretando a canção "Wild is the Wind". Essa obra, que evoca uma viagem no tempo e cativa o espectador, guarda uma conexão surpreendente e literal com a moda: o mesmo arranjo sonoro orquestrado por McQueen serviu como trilha para a coleção de Primavera/Verão 2026 da Bottega Veneta, a primeira sob o comando de Louise Trotter. A afinidade entre McQueen e a grife italiana não é recente, com o artista já tendo sido visto vestindo peças da marca durante a era de Matthieu Blazy em 2024. No entanto, a colaboração com Trotter se mostra particularmente acertada. A nova diretora criativa tem guiado a Bottega Veneta para um território mais suave, emocional e usável, afastando-se de conceitos excessivamente conceituais e buscando inspiração em ícones do mundo da arte. Essa nova direção dialoga diretamente com o estilo de vestir que McQueen também tem cultivado.

Diálogo Estético e Conceitual

As peças que definem a estética atual de McQueen, assim como a proposta de Trotter para a Bottega Veneta, compartilham uma predileção por peças arquitetonicamente equilibradas, porém funcionais. São roupas pensadas para o movimento no mundo, mas com um toque de textura e originalidade que as faz sobressair. Essa abordagem reflete a própria produção artística de McQueen, conhecida por sua intensidade e profundidade. Seus filmes, como "Shame" e o vencedor do Oscar "12 Years a Slave", são marcados por uma crueza pronunciada e planos-sequência que, segundo ele, assemelham-se a pinturas, imagens que o espectador carrega consigo. Essa capacidade de reter um momento, de permitir que um sentimento se construa gradualmente, encontra um eco na coleção da Bottega Veneta, cujas notas de apresentação celebram "o romance do processo".

Evolução do Estilo Pessoal

O estilo de Steve McQueen, contudo, não surgiu de forma instantânea. Ao longo de décadas, ele evoluiu gradualmente. Mesmo em seus primeiros anos, os indícios de sua futura conexão com a Bottega Veneta já eram visíveis. Um exemplo notável foi o conjunto de inspiração anos 90 que ele vestiu ao receber o Turner Prize em 1999. Aquele blazer bege, embora adornado com uma ousada estampa quadriculada laranja, exibia um corte impecável, assim como a camisa branca nítida por baixo. Essa precisão na silhueta, aliada a uma abordagem cada vez mais contida, mas ainda assim proposital, no vestir, acompanha a evolução de sua obra. Seja em marcas como Zegna, Craig Green ou Yohji Yamamoto, que ele já vestiu, McQueen demonstra um entendimento apurado de como a roupa pode complementar sua visão artística.

A Arte como Inspiração e a Moda como Expressão

McQueen compreendeu a essência da colaboração com a Bottega Veneta de forma autônoma. Em suas próprias palavras, ele buscava "intensificar as emoções das pessoas, torná-las mais sensíveis às roupas". Ele descreve a experiência de assistir a desfiles de moda como uma "encarnação contemporânea da ópera", um espetáculo de vanguarda, e não algo antiquado. A coleção resultante, apresentada em Milão, carregou a mesma tensão característica do trabalho de McQueen: uma ponte entre passado e presente, entre rigor e liberação. Agora, os ecos dessa colaboração ressoam em Bilbao, demonstrando como a arte e a moda podem se entrelaçar de maneiras profundas e significativas, moldando identidades e expressando visões de mundo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Highsnobiety