Em entrevista à rede britânica ITV sobre o projeto cinematográfico "Disclosure Day", Steven Spielberg traçou uma linha divisória contra duas das principais forças de transformação de Hollywood: a inteligência artificial generativa e o modelo de distribuição direta para o streaming. O diretor afirmou categoricamente que nunca utilizaria IA em suas produções, optando por métodos analógicos, e rejeitou a ideia de produzir longas-metragens voltados exclusivamente para o consumo doméstico via Netflix. A posição não representa apenas uma preferência nostálgica, mas uma defesa estrutural do cinema como um evento físico e coletivo, enraizado na experiência de estranhos compartilhando reações em um espaço comum.
A barreira contra a automação criativa
Questionado sobre a criação de vozes alienígenas no novo filme, Spielberg revelou que a produção dependeu da performance orgânica do elenco. Caso a execução humana falhasse, o diretor garantiu que não recorreria a softwares de síntese vocal. A alternativa seria o método tradicional: gravar sons de golfinhos ou elefantes e manipular a velocidade e a direção do áudio em estúdio, um trabalho mecânico conduzido por seu designer de som. "Eu nunca teria usado IA", cravou o cineasta.
Para contexto, a BrazilValley aponta que a resistência de diretores veteranos à automação ocorre em um período onde estúdios de Hollywood buscam ativamente eficiências de custo na pós-produção, testando a substituição de processos de Foley e dublagem por modulações sintéticas.
A preferência de Spielberg pelo controle humano se estende à fotografia. O diretor destacou que o uso de luz e sombra para guiar a atenção do público continua sendo o fundamento de sua narrativa visual. Ele creditou essa execução ao seu diretor de fotografia, Janusz Kamiński, com quem colabora ininterruptamente desde "A Lista de Schindler", em 1993, reforçando a dependência de parcerias criativas de longo prazo em detrimento de soluções algorítmicas.
O isolamento do streaming e a realidade do fenômeno
Na mesma conversa, Spielberg argumentou que a energia comunal de uma sala de cinema não pode ser replicada no ambiente doméstico. Ele relembrou as exibições-teste de "Tubarão", quando o susto gerado pela cabeça de Ben Gardner fez pipocas voarem pelo público. Segundo o diretor, se o objetivo fosse apenas enviar filmes para indivíduos assistirem isoladamente, ele ficaria feliz em trabalhar para a Netflix e alcançar milhões de telas. No entanto, sua convicção permanece atrelada a projeções de 70 milímetros em salas escuras, preservando a herança dos salões de dança do início do século XX, onde estranhos se reuniam diante de um projetor rudimentar.
Essa defesa do espetáculo físico converge com a temática de seu novo projeto. Motivado pela reportagem do New York Times de 2017 sobre objetos "tic tac" que superavam caças da Marinha — caindo de 80 mil para mil pés em quatro segundos —, Spielberg passou a tratar o fenômeno UFO não como ficção científica, mas como uma divulgação iminente da realidade. Ele criticou campanhas históricas de desinformação militar, citando o Projeto Blue Book das décadas de 1950 e 1960, que sistematicamente descartava avistamentos reais como gás de pântano ou reflexos do planeta Vênus.
A dupla rejeição de Spielberg à inteligência artificial e à distribuição primária via streaming sublinha uma fratura filosófica na indústria do entretenimento. Enquanto plataformas de tecnologia otimizam processos para ganhar escala e reter atenção individual, a vanguarda histórica de Hollywood insiste na fricção: a manipulação braçal do som e o deslocamento físico do público. A tese do diretor é que o acesso digital ilimitado é incapaz de substituir o choque ontológico e a catarse coletiva que sustentam o modelo de negócios e a arte do cinema há mais de um século.
Fonte · Brazil Valley | Movies




