A Capcom e a Legendary Entertainment parecem ter encontrado uma nova estratégia para a sua próxima tentativa de levar Street Fighter aos cinemas: abraçar o ridículo. Em uma entrevista recente à Empire Magazine, o diretor Kitao Sakurai revelou que a intenção é criar um filme com um tom distinto, que não se pareça com uma "adaptação genérica de videogame" e que não tenha medo de flertar com o absurdo.

A decisão é mais do que uma escolha estética; é um movimento estratégico calculado. Após duas adaptações cinematográficas que se tornaram sinônimo de fracasso — uma em 1994 e outra em 2009 —, a nova produção parece ter entendido que tentar impor um verniz de seriedade a uma franquia sobre lutadores que disparam bolas de energia com as mãos é uma batalha perdida. A aposta, agora, é na autoconsciência.

A maldição do hadouken

O histórico de Street Fighter nas telas é um estudo de caso sobre como não adaptar um videogame. O filme de 1994, com Jean-Claude Van Damme, tornou-se um clássico cult justamente por seu tom involuntariamente cômico e caótico. Já a tentativa de 2009, A Lenda de Chun-Li, buscou um caminho mais sombrio e realista, resultando em um filme esquecível que falhou em capturar qualquer elemento que tornasse o jogo cativante.

A escolha de Sakurai para a direção sinaliza a nova rota. Com um currículo que inclui a comédia anárquica The Eric Andre Show e o filme de pegadinhas Bad Trip, o diretor é um especialista no tipo de humor que ri de si mesmo. A ideia, segundo ele, é resgatar a diversão irreverente de brincar com os personagens, equilibrando nostalgia com uma abordagem que se sabe parte de um universo inerentemente fantasioso.

Jogando contra o manual de Hollywood

A abordagem de Sakurai pode ser lida como uma rejeição ao manual de adaptações que dominou Hollywood por anos, onde a ordem era "aterrar" conceitos fantásticos em uma realidade palpável. O sucesso de filmes como Deadpool e Barbie — que usaram a metalinguagem e o humor autodepreciativo como pilar narrativo — talvez tenha aberto espaço para que mais estúdios confiem na inteligência do público para entender a piada.

Para a Capcom, que viu o sucesso de suas franquias Resident Evil e Monster Hunter nos cinemas, acertar com Street Fighter é a peça que falta no quebra-cabeça. A estratégia de abraçar o ridículo é arriscada. Pode alienar uma parte do público que espera um filme de ação convencional, mas carrega a promessa de, pela primeira vez, ser fiel não à letra, mas ao espírito divertido e exagerado do jogo.

O desafio será encontrar o equilíbrio tênue entre a homenagem e a paródia. Se bem-sucedido, o novo Street Fighter pode não apenas quebrar sua própria maldição cinematográfica, mas também oferecer um novo caminho para outras propriedades intelectuais que não se encaixam no molde do blockbuster tradicional.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Canaltech