Nick Wakeman ri ao descrever a preparação para o que chama de "os sete minutos mais caros da minha vida". Em uma chamada de vídeo de Londres, a fundadora da Studio Nicholson reflete sobre a ironia de estar doente justamente na véspera de seu primeiro desfile, após mais de uma década e meia de operação discreta. Desde 2010, a marca construiu uma reputação sólida sem recorrer ao espetáculo, focando em formas esculpidas e tecidos europeus que, mais do que vestir, redefinem a silhueta humana. O desfile, portanto, não é uma mudança de rota, mas uma celebração da persistência em uma indústria que exige novidades constantes.
A estética da permanência
Em um mercado saturado de logotipos e tendências efêmeras, a Studio Nicholson sempre operou como um ponto fora da curva. Wakeman construiu um legado baseado na redução, na busca pela essencialidade que, segundo ela, define o verdadeiro bom gosto. Enquanto muitas marcas competem pela atenção imediata, a Studio Nicholson consolidou um público fiel que valoriza a consistência acima da novidade. O reposicionamento atual, que inclui uma nova identidade visual desenvolvida por David McKendrick, reflete essa maturidade. A escolha de uma tipografia inspirada em jornais dos anos 70 não é apenas um detalhe estético, mas uma tentativa de ancorar a marca em uma tradição que parece, ao mesmo tempo, antiga e contemporânea.
O mito do luxo silencioso
Wakeman é categórica ao rejeitar o termo "luxo silencioso", uma etiqueta que ela considera vazia. Para a diretora criativa, o que muitos rotulam como luxo é, na verdade, apenas "bom gosto" — algo que não pode ser comprado ou forçado. A marca evita a armadilha do excesso, preferindo aperfeiçoar peças icônicas, como a calça Sorte, que se tornou uma referência universal de design. A repetição, aqui, não é falta de criatividade, mas um exercício de precisão e refinamento constante. A cada temporada, o que muda não é a essência da peça, mas a textura e o contexto dos materiais, provando que a moda pode ser duradoura em vez de descartável.
Expansão e escala global
O movimento em direção às passarelas, embora impulsionado pelo desejo pessoal de Wakeman, também atende a uma lógica de negócios. Com planos de abertura de 12 novas lojas na China e expansões na Coreia do Sul e em Nova York, a marca reconhece a necessidade de se estabelecer no chamado "arena da moda". O desafio para a Studio Nicholson é manter a intimidade e a autenticidade que definiram sua trajetória enquanto escala para um público global. A tensão entre o crescimento comercial e a pureza do design é o dilema que Wakeman enfrenta ao tentar manter a marca fiel aos seus valores originais de produção.
O futuro da individualidade
O cenário atual da moda preocupa Wakeman, que vê uma padronização global do vestir. A esperança da designer reside na ideia de que o estilo pessoal é, em última análise, uma forma de narrativa individual que não pode ser ensinada. Ela observa que a verdadeira elegância reside na capacidade de sentir-se confortável e autêntico, independentemente das tendências. Enquanto a Studio Nicholson se prepara para o palco global, a questão que permanece é se o mercado conseguirá sustentar marcas que priorizam a paciência sobre a velocidade. A resposta, talvez, resida na capacidade do consumidor de distinguir o ruído do design que, de fato, possui alma.
O desfile da Studio Nicholson não é um ponto final, mas uma interrupção necessária no fluxo frenético da moda. Se o luxo é, como sugere Wakeman, apenas a manifestação de um gosto discernível, resta saber quem ainda terá a calma necessária para reconhecê-lo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Highsnobiety





