O Substack, plataforma que se tornou sinônimo da economia de criadores baseada em newsletters, enfrenta um momento decisivo de maturação. Diante da saída de publicações de alto perfil, como a The Ankler, que buscou maior controle técnico e flexibilidade em plataformas concorrentes, o cofundador Hamish McKenzie sinalizou que a empresa está acelerando o desenvolvimento de ferramentas desenhadas especificamente para editoras de maior volume.

Em evento realizado em Nova York, McKenzie admitiu que o modelo atual, embora eficiente para criadores individuais, precisa evoluir para reter empresas de mídia que demandam design customizado e novas formas de monetização, como a publicidade display. A estratégia reflete uma tentativa clara de impedir que publicações que começaram pequenas, mas escalaram rapidamente, sintam a necessidade de abandonar o ecossistema da empresa em busca de infraestruturas mais robustas.

A transição do solopreneur para a mídia organizada

A gênese do Substack foi construída sobre a simplicidade do modelo de assinatura direta, focada no escritor individual ou no pequeno grupo de editores. No entanto, essa mesma simplicidade, que facilitou a rápida adoção da ferramenta, tornou-se um gargalo para publicações que buscam construir uma marca visualmente distinta e independente. O caso da The Free Press, de Bari Weiss, serviu como um laboratório importante para a empresa, permitindo a implementação de paywalls customizados e ferramentas analíticas avançadas.

A leitura aqui é que o Substack está tentando generalizar o aprendizado obtido com esses projetos-piloto. A empresa reconhece que, para manter sua relevância no mercado editorial de médio e grande porte, precisa oferecer mais do que apenas uma lista de e-mails e um sistema de pagamentos. A personalização da interface não é apenas um desejo estético, mas uma necessidade estratégica para que essas publicações não sejam percebidas apenas como 'mais um Substack' no mercado.

O desafio dos modelos de receita e concorrência

A concorrência no setor de newsletters tem se intensificado, com plataformas como Beehiiv e Ghost ganhando terreno ao oferecer modelos de taxas fixas que contrastam com a comissão baseada em receita do Substack. A ausência de ferramentas nativas para publicidade sempre foi um ponto de fricção para publicações que desejam diversificar suas fontes de receita além das assinaturas pagas. Ao anunciar que está perto de lançar um marketplace de patrocínios, o Substack tenta endereçar essa lacuna diretamente.

O mecanismo planejado para esse marketplace, com uma divisão de receita similar aos 10% cobrados sobre as assinaturas, sugere que a empresa quer manter sua estrutura de incentivos alinhada ao sucesso do criador. Contudo, resta saber se a proposta será atraente o suficiente para evitar que grandes publicações migrem para soluções proprietárias ou plataformas como o Passport, que oferecem maior controle sobre a experiência do usuário final.

Implicações para o ecossistema de mídia

A movimentação do Substack traz implicações importantes para o futuro do jornalismo independente. À medida que a plataforma se torna mais complexa, ela se aproxima de um sistema de gestão de conteúdo (CMS) tradicional, o que pode alterar a dinâmica de poder entre a plataforma e o editor. Para os criadores brasileiros que utilizam o Substack como principal canal, a evolução da ferramenta pode significar um ganho de profissionalização, mas também uma possível dependência maior de uma infraestrutura que, até então, era valorizada pela sua neutralidade e simplicidade.

Para os reguladores e observadores do mercado, o movimento reforça a tendência de consolidação das plataformas de mídia. A disputa por grandes editoras não é apenas sobre receita, mas sobre o controle da audiência e dos dados de engajamento, elementos cruciais para a sobrevivência de qualquer operação de mídia digital contemporânea.

O futuro da infraestrutura editorial

O que permanece incerto é se essas novas funcionalidades conseguirão equilibrar a flexibilidade exigida pelos grandes publishers com a facilidade de uso que atrai milhões de usuários de base. A transição para um modelo de 'negócio de mídia completo' exige uma infraestrutura técnica que o Substack ainda está testando e refinando.

Acompanhar a adoção dessas ferramentas pelos criadores de médio porte será o próximo termômetro para entender se o Substack conseguirá reter os talentos que, em outros tempos, teriam migrado para redações tradicionais ou plataformas de nicho. A evolução da plataforma continua, mas o desafio de manter a identidade original enquanto se expande para o mercado corporativo permanece no horizonte.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider