A Suíça deu um passo pragmático, e caro, para avançar seu acordo comercial com o Mercosul. A câmara alta do parlamento suíço aprovou o tratado de livre-comércio com o bloco sul-americano, mas a um custo explícito: um pacote de auxílio de 517 milhões de francos suíços (cerca de US$ 633 milhões) para seus próprios agricultores, a ser pago ao longo de seis anos.
A manobra política, aprovada por 35 votos a sete, foi a chave para reverter a rejeição do acordo na câmara baixa, ocorrida em junho. O movimento expõe a ferida aberta do protecionismo agrícola na Europa e sinaliza que, para nações ricas, o preço da abertura comercial com potências agrícolas como o Brasil pode ter de ser pago primeiro em casa, com subsídios diretos.
O custo da abertura
A agricultura é um setor politicamente sensível na Suíça, com forte poder de lobby. A oposição ao acordo com o Mercosul uniu a direita nacionalista e a esquerda ambientalista, uma aliança que conseguiu barrar o texto na primeira votação. A solução encontrada pelo governo foi, essencialmente, comprar o apoio necessário, compensando financeiramente as perdas previstas para o setor agrícola local. A medida não é uma vitória do livre-comércio, mas um compromisso que reconhece sua força.
Para o Mercosul, o resultado é positivo, mas a negociação serve de alerta. A Suíça, embora a maior economia da EFTA (que inclui também Noruega, Islândia e Liechtenstein), é um mercado pequeno. O episódio demonstra, em escala reduzida, o principal obstáculo para a ratificação do acordo muito maior e mais significativo com a União Europeia: a resistência dos agricultores, especialmente em países como França e Irlanda.
Um sinal para Bruxelas
A estratégia suíça pode ser vista como um roteiro. Se a compensação financeira interna é o único caminho para apaziguar setores protecionistas e viabilizar acordos comerciais, o custo político e fiscal para a União Europeia seria ordens de magnitude maior. O acordo suíço ainda precisa retornar à câmara baixa para uma nova votação, e sua aprovação final não está garantida. A vitória, portanto, é provisória e condicional.
O que se desenha é um cenário onde o avanço da agenda comercial do Mercosul na Europa depende menos de negociações diplomáticas em Bruxelas e mais de complexas costuras políticas internas em cada capital. O Brasil e seus parceiros celebram um avanço, mas a lição de Zurique é clara: o caminho para o mercado europeu é pavimentado com cheques para seus próprios produtores.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





