Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) confirmaram a presença da bactéria Acinetobacter baumannii em quatro regiões de Porto Alegre. A detecção, realizada no âmbito dos programas CLIMASANO e ClimaRes WaSH, mapeou o microrganismo em pontos como as praias de Ipanema e Lami, a foz do arroio Dilúvio e a estação de bombeamento Menino Deus.

O achado mais crítico ocorreu na unidade de bombeamento Menino Deus, onde a cepa isolada apresentou resistência aos 14 antibióticos testados, incluindo fármacos de uso hospitalar como meropenem e ciprofloxacino. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica A. baumannii resistente a carbapenêmicos entre os patógenos de maior prioridade para pesquisa e desenvolvimento de novos antimicrobianos.

O desafio da resistência bacteriana

A Acinetobacter baumannii é reconhecida por sua capacidade de sobreviver em ambientes hospitalares e naturais e por desenvolver multirresistência, o que torna infecções mais difíceis de tratar e eleva o risco para pacientes vulneráveis. O fenômeno pressiona os protocolos clínicos e amplia a urgência por vigilância e novas terapias.

A UFRGS planeja o sequenciamento genético das amostras ambientais para entender a relação entre as linhagens detectadas no Guaíba e cepas clínicas, hipótese que ainda será testada. O objetivo é esclarecer possíveis conexões e orientar estratégias de contenção.

Dinâmicas de contaminação em investigação

Os pesquisadores avaliam rotas prováveis de dispersão via esgoto urbano, incluindo a contribuição de diferentes efluentes que chegam à rede. A hipótese de que o esgoto atue como vetor ambiental para patógenos resistentes está em análise, mas a origem específica das cepas identificadas permanece sob investigação. Especialistas destacam a importância do pré-tratamento adequado de efluentes e da eficácia das estações de tratamento, bem como da fiscalização, para reduzir riscos de disseminação.

A presença de bactérias multirresistentes em áreas de uso recreativo e em pontos associados à drenagem urbana reforça a necessidade de avaliar a performance dos sistemas de saneamento e de gestão de efluentes, sem atribuir, neste momento, responsabilidades a fontes específicas.

Implicações para a saúde pública

Enquanto se mede a exposição da população e se reavaliam terapias disponíveis, a equipe pretende analisar a sensibilidade à polimixina B, considerada uma das últimas linhas de tratamento para infecções por A. baumannii. O resultado pode indicar se ainda há alternativas eficazes no curto prazo.

O cenário sugere revisão de políticas de saneamento e integração entre vigilância sanitária, gestão de recursos hídricos e monitoramento genômico para conter a circulação de patógenos resistentes no ambiente urbano.

Perspectivas de monitoramento

Ainda é incerta a extensão da circulação dessas cepas em outras bacias da região e a velocidade de propagação no meio urbano. A continuidade dos estudos genômicos será crucial para rastrear a origem dos espécimes e aferir a eficácia das medidas de contenção.

Transparência sobre riscos ambientais e monitoramento contínuo da qualidade da água devem pautar as próximas ações das autoridades. A descoberta em Porto Alegre sinaliza fragilidades nas barreiras de proteção contra superbactérias e reforça a necessidade de abordagens multidisciplinares, da engenharia sanitária à infectologia.

Com reportagem de InfoMoney

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