A Super Micro Computer, fornecedora de hardware com laços com Nvidia e SpaceX, anunciou a nomeação de Mark Long, 59, como seu novo diretor financeiro (CFO), com efeito imediato. A decisão encerra uma busca por um substituto para David Weigand, que se estendia por quase dois anos, desde que uma investigação interna levou a empresa a se comprometer a buscar um novo líder financeiro. Long, com vasta experiência como executivo e investidor em tecnologia, incluindo passagens pela Western Digital e como cofundador de um SPAC, chega em um momento crítico para a Supermicro.

Sua chegada visa, em parte, dissipar as nuvens de desconfiança que pairam sobre a empresa nos últimos anos e restaurar a credibilidade junto a investidores. O contexto é marcado por um escândalo de contrabando que veio à tona em março, quando o Departamento de Justiça e o FBI indiciaram e prenderam Yih-Shyan “Wally” Liaw, cofundador da Supermicro. Liaw e outros associados foram acusados de orquestrar um esquema de US$ 2,5 bilhões para contrabandear hardware da Supermicro, equipado com chips de controle de exportação da Nvidia, para a China. Relatos descrevem táticas elaboradas, como a substituição de etiquetas e a criação de servidores fictícios para ocultar o desvio dos equipamentos reais.

Governança sob Pressão

A Supermicro, que não figura como ré no processo, declarou cooperação com as autoridades. Liaw se declarou inocente. Sua prisão desencadeou uma nova investigação interna, separada da que iniciou a busca pelo CFO. Em agosto, a empresa informou que essa nova apuração não encontrou evidências de que a alta gerência atual tivesse conhecimento do esquema de contrabando. Liaw, que teve um histórico complexo com a empresa, incluindo uma saída anterior em meio a investigações e um retorno posterior, servia no conselho da Supermicro até sua prisão.

Este episódio se soma a um histórico de escrutínio regulatório. Em 2018, uma investigação da SEC levou a acusações contra a Supermicro e seu então CFO por práticas de reconhecimento de receita inadequadas, resultando em um acordo de US$ 17,5 milhões em 2020. A investigação anterior que motivou a substituição de Weigand foi desencadeada pela renúncia abrupta da auditoria EY e focou em controles de exportação e na recontratação de funcionários que haviam deixado a empresa em 2017. Weigand, como CFO e diretor de conformidade, foi considerado responsável por falhas processuais identificadas, incluindo um acordo de consultoria com o ex-CFO que não foi informado à EY.

O Novo Comandante Financeiro

A nomeação de Mark Long ocorre em um cenário de intensificação do escrutínio. Desde a prisão de Liaw, a Supermicro recebeu intimações do Gabinete do Procurador dos EUA para o Distrito Sul de Nova York, relacionadas tanto à indictment de Liaw quanto aos programas de conformidade e controles internos da empresa. Autoridades estrangeiras, a SEC e o Bureau of Industry and Security (BIS) do Departamento de Comércio dos EUA também emitiram intimações e solicitações de informação. O julgamento de Liaw foi adiado para março de 2027, e um dos coacusados, Ting-Wei “Willy” Sun, já se declarou culpado de conspiração para contrabandear bens, violar regras de exportação e obstrução da justiça, com a sentença prevista para setembro de 2027.

Long, que terá um salário base de US$ 725.000, um bônus de assinatura de US$ 500.000 e um bônus anual garantido de US$ 500.000, além de potencial participação em bônus e concessões de ações, assume a responsabilidade de navegar por essas águas turbulentas. Sua experiência anterior, especialmente na Western Digital, onde trabalhou com Judy Lin, agora membro do conselho da Supermicro, pode ser um trunfo. A empresa busca reforçar sua execução financeira sob sua liderança, conforme declarado pelo CEO Charles Liang.

Implicações e Próximos Passos

A chegada de Long sinaliza uma tentativa da Supermicro de virar a página e reconstruir a confiança. A complexidade do caso de contrabando, envolvendo chips de alta tecnologia e um mercado estratégico como a China, levanta questões sobre a eficácia dos controles internos e da diligência da empresa. O envolvimento de um cofundador e as investigações subsequentes destacam os desafios de governança corporativa em empresas de rápido crescimento e com cadeias de suprimentos globais intrincadas.

A cooperação da Supermicro com as autoridades e a investigação interna que não encontrou culpa da alta gerência são pontos a serem observados. No entanto, a série de intimações e o processo em andamento para Liaw e outros associados indicam que o escrutínio regulatório sobre a empresa e suas práticas de conformidade está longe de terminar. A capacidade de Long de implementar e supervisionar controles financeiros e de conformidade robustos será crucial para a estabilidade e o futuro da Supermicro.

Perguntas em Aberto

O desfecho do caso criminal contra Liaw e outros envolvidos terá implicações significativas para a reputação e as operações da Supermicro. A extensão da colaboração de Ting-Wei Sun com o governo, por exemplo, pode trazer novas revelações. Além disso, a análise dos programas de conformidade e controles internos pela SEC e outras agências reguladoras pode resultar em novas exigências ou sanções para a empresa.

A transição de Weigand, que permanecerá para auxiliar na passagem de bastão, ainda carece de detalhes sobre seu novo papel. A Supermicro terá que demonstrar, de forma transparente, que as lições aprendidas com as investigações passadas e o caso atual estão sendo incorporadas em sua estrutura de governança. O mercado observará de perto como a nova liderança financeira lidará com esses desafios complexos e se conseguirá restaurar a confiança dos investidores e parceiros comerciais.

A nomeação de Mark Long como CFO da Supermicro é um passo importante em meio a um período de turbulência. Sua experiência será posta à prova enquanto a empresa enfrenta as repercussões de um escândalo de contrabando e um escrutínio regulatório renovado. A forma como a Supermicro gerenciará esses desafios definirá sua trajetória futura. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune