A romancista Sarai Walker, em um ensaio profundamente pessoal para a publicação literária Lit Hub, articula uma tese desconfortável: sua obsessão de décadas pela poeta Sylvia Plath não é fundamentalmente diferente da fascinação cultural pelo gênero 'true crime'. Ao conectar a veneração pela autora de “A Redoma de Vidro” com o consumo de histórias de vítimas como JonBenét Ramsey ou Shanann Watts, Walker força uma reflexão sobre como a cultura popular processa, empacota e consome a tragédia feminina.
O argumento central do texto é que Plath, com sua biografia marcada pela depressão, um casamento tumultuado com o poeta Ted Hughes e o suicídio aos 30 anos, tornou-se um arquétipo. Ela é a 'garota que iluminava o ambiente', cuja vida foi tragicamente interrompida — um perfil recorrente nas narrativas de crimes reais que dominam o streaming e os podcasts. A leitura aqui é que o legado de Plath transcendeu a literatura e se tornou um produto cultural, onde a complexidade de sua vida e obra é frequentemente subsumida pela narrativa simplificada de vitimização.
A santificação da vítima
Walker descreve sua própria jornada de fã, que começou na adolescência, como uma peregrinação. Ela visitou as casas onde Plath viveu e morreu em Londres e via a poeta como um “símbolo sedutor”, a “equivalente literária de Jim Morrison para garotas tristes”. Nessa visão, Plath era um gênio criativo destruído por uma cultura patriarcal tóxica, personificada em seu marido, Ted Hughes. Ele se tornou o vilão por excelência, uma figura odiada por legiões de admiradoras que, como Walker, sentiam uma raiva quase pessoal por ele ter enterrado a esposa americana “neste canto remoto da Inglaterra”.
Este processo de mitificação, no entanto, revelou-se problemático. O ponto de virada para a romancista foi um simpósio sobre Plath em Oxford, em 2007. Rodeada por acadêmicas e fãs que falavam da poeta com uma intimidade possessiva, ela viu seu próprio comportamento refletido e se sentiu perturbada. “A experiência revelou como nós também estávamos lutando pela posse dela”, escreve. A análise que emerge é que a transformação de Plath em um ícone feminista mártir, embora compreensível, corre o risco de desumanizá-la, transformando-a em uma causa e apagando as nuances de sua existência.
Do cânone literário ao 'true crime'
É na conexão com o 'true crime' que o ensaio de Walker atinge seu ponto mais agudo. Ela confessa sua “curiosidade mórbida” por casos de grande repercussão e admite ter visitado as casas onde ocorreram assassinatos famosos, em parte como pesquisa para seu novo romance, mas também para satisfazer uma fascinação pessoal. Foi então que a ficha caiu: a atração por essas tragédias e a devoção a Plath partiam do mesmo lugar. “Não demorou para que eu começasse a ver a conexão entre meu fascínio por essas meninas e mulheres mortas e meu fascínio por Sylvia Plath”, relata.
Plath, argumenta Walker, se encaixa no molde. Jovem, bonita, talentosa e morta de forma trágica. Sua história tem um antagonista claro, facilitando o consumo narrativo. A acusação da poeta feminista Robin Morgan, em 1972, de que Hughes havia “assassinado” Plath metaforicamente, apenas cimentou essa estrutura. O movimento sugere que, muito antes da Netflix, a história de Plath já operava com a lógica do 'true crime': uma vítima idealizada, um vilão conveniente e um público que consome a história para processar seus próprios medos sobre violência e misoginia.
A questão que o texto de Walker deixa no ar é sobre a natureza desse consumo. A obsessão por Plath e por outras vítimas é uma forma de empatia, um mecanismo para entender a violência e a injustiça? Ou é uma forma de entretenimento mórbido, que aplaina vidas complexas em dramas de fácil digestão? Ao satirizar esse fanatismo em seu próprio romance, Walker não oferece respostas fáceis, mas expõe a linha tênue entre prestar homenagem e se apropriar da dor alheia, um dilema central na cultura contemporânea.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





