A inovação tecnológica contemporânea está rompendo as barreiras geográficas tradicionais, deixando de ser um fenômeno exclusivo dos grandes centros urbanos. Durante o Festival Forbes España 30 Under 30, o painel "La revolución de lo físico: de la ciudad al campo" trouxe à tona como a aplicação de inteligência artificial, Internet das Coisas (IoT) e análise de dados está modernizando atividades fundamentais, como a pecuária, a indústria náutica e a publicidade exterior.

O encontro, moderado por Daniela Álvarez, cofundadora da Ac2ality, reuniu nomes como Pablo López (Innogando), Víctor Moure (Kumbra Yachts) e Manuel Ferreira (ADCities). A tese central é que a tecnologia, longe de ser apenas um software em nuvem, atua como um catalisador para a eficiência em setores que sustentam a economia real, provando que o desenvolvimento econômico pode ser aliado à sustentabilidade e à revitalização de territórios historicamente negligenciados pela revolução digital.

A descentralização da inovação tecnológica

A digitalização do mundo físico representa uma mudança de paradigma na forma como o ecossistema de startups enxerga oportunidades. Setores que antes eram vistos como saturados ou de baixo valor tecnológico estão sendo ocupados por empresas que focam na resolução de problemas práticos. Segundo Manuel Ferreira, da ADCities, a obsessão por gerar valor real é o motor que permite a sobrevivência e o crescimento, independentemente da percepção de que um mercado já possui competidores estabelecidos.

Essa abordagem prática reflete uma tendência observada globalmente, onde a tecnologia aplicada ao campo, ao mar e às cidades inteligentes deixa de ser uma promessa abstrata para se tornar um diferencial competitivo. A modernização de processos tradicionais, como a gestão de rebanhos via sensores ou a digitalização da publicidade física, demonstra que a inovação é, na verdade, a capacidade de encontrar novas respostas para problemas que persistem há décadas.

O impacto na cadeia de valor local

Um dos pontos mais relevantes discutidos pelos empreendedores foi o efeito multiplicador que a inovação industrial pode exercer sobre o emprego e a economia local. Víctor Moure, da Kumbra Yachts, ilustrou como a fabricação de embarcações de alta gama, embora conte com uma equipe direta reduzida, movimenta centenas de fornecedores e fortalece a indústria nacional, mantendo a cadeia de valor concentrada geograficamente.

Essa dinâmica desafia a ideia de que a tecnologia apenas centraliza o capital. Ao investir em setores estratégicos e transformadores, empresas conseguem criar um ecossistema de suporte que beneficia pequenos fornecedores e gera empregos especializados em regiões fora dos polos tecnológicos tradicionais. A sustentabilidade, neste contexto, não é apenas ambiental, mas econômica e social, ao garantir que a inovação permaneça enraizada no território.

Desafios e o futuro das indústrias tradicionais

O debate também abordou a necessidade de atrair talento para setores que atravessam transformações profundas. A atração de profissionais qualificados para áreas que exigem conhecimento técnico e operacional é um dos grandes gargalos para a expansão dessas startups. A confiança para empreender, como destacou Pablo López, surge da combinação entre vocação pessoal e a existência de referências que comprovem a viabilidade de projetos inovadores em nichos tradicionais.

O desafio para os próximos anos reside em como escalar essas soluções sem perder a conexão com a realidade física e as necessidades locais. A tecnologia deve ser vista como uma ferramenta de potencialização da vida cotidiana, seja na forma de produzir alimentos, de navegar ou de habitar as cidades, garantindo que o progresso seja tangível e benéfico para a sociedade em geral.

Perspectivas para o ecossistema

O que permanece incerto é a velocidade com que essa transição será adotada por empresas de maior porte e como as políticas públicas poderão apoiar a digitalização dessas indústrias sem criar barreiras regulatórias excessivas. A observação de como essas startups de nicho irão expandir suas operações para além de suas fronteiras iniciais será fundamental para entender o sucesso da "revolução do físico". O futuro, ao que tudo indica, continuará sendo desenhado sobre o terreno, onde a tecnologia encontra a prática.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España