A Telefónica, uma das maiores empresas de telecomunicações do mundo, está prestes a abandonar seu tradicional modelo de negócios centrado em operações nacionais. Em uma profunda reestruturação, a companhia planeja organizar suas atividades em três áreas de alcance paneuropeu: Consumo, Grandes Clientes e Sistemas. Essa mudança estratégica, que visa unificar operações sob eixos de clientes em vez de geografias nacionais, representa uma alteração fundamental na forma como a empresa opera e se projeta no mercado.

Do Modelo Nacional à Convergência Paneuropeia

Por décadas, a Telefónica funcionou como uma colcha de retalhos de operadoras nacionais, cada uma com sua própria regulamentação, espectro de frequência e liderança local. A nova estrutura, contudo, propõe uma visão unificada, onde o foco principal não será mais o país de atuação, mas sim o tipo de cliente atendido. A área de Consumo, que deverá ser liderada por Óscar Candiles, atual CRO da Telefónica Espanha, terá a missão de replicar o modelo de convergência fixo-móvel que obteve sucesso na Espanha e no Brasil em mercados como a Alemanha. Essa estratégia reflete a percepção de que o modelo espanhol é o mais exportável dentro do portfólio da empresa.

Desafios da Expansão e a Realidade "Paneuropeia"

A ambição de uma operação "paneuropeia" esbarra em algumas realidades. O Reino Unido, por exemplo, pode ficar de fora dessa unificação devido à estrutura de governança compartilhada da VMO2 com a Liberty Global. Na prática, o eixo central da nova estratégia tende a se concentrar em Espanha e Alemanha, com as decisões estratégicas emanando de Madrid. A área de Sistemas, que agrupa redes, infraestrutura de fibra, 5G, cabos submarinos e sistemas de informação, será comandada por Sergio Sánchez. Curiosamente, a tecnologia vendida pela Telefónica Tech, como cloud e cibersegurança, será integrada à área de Grandes Clientes, sob a responsabilidade de Borja Ochoa, indicando que a empresa se vê mais como uma operadora que vende tecnologia do que uma empresa de tecnologia com infraestrutura própria.

Novos Horizontes: Além da Conectividade

Com o mercado de conectividade apresentando crescimento plano, a Telefónica busca novas fontes de receita. A contratação de Alberto Ruano, ex-diretor geral da Lenovo Espanha, para consolidar a cadeia de dispositivos, desde fabricantes até o cliente final, é um passo nessa direção. A venda de hardware, que já alcançou quase um milhão de unidades este ano com uma diversificação significativa para além de smartphones, representa uma via promissora para aumentar a receita por residência. Atualmente, o segmento de Consumo responde por quase 60% do faturamento, seguido por Empresas (25%) e Atacado (cerca de 16%). O segmento de Empresas é o principal motor de crescimento, enquanto o Atacado apresenta queda.

Perguntas em Aberto e o Futuro da Reorganização

Apesar da nova estrutura, as telecomunicações permanecem, em grande parte, negócios inerentemente nacionais. Licenças, regulamentações, concorrência e sindicatos são fatores locais que dificultam a padronização total. A eficácia do modelo de convergência espanhol em outros mercados, mesmo com centralização estratégica, ainda precisa ser comprovada. Resta ainda definir se o negócio atacadista, em declínio, será de fato integrado à área de Grandes Clientes, misturando linhas de negócios com dinâmicas distintas. A confirmação oficial da reestruturação e a extensão de suas implicações para licenças e subsidiárias ainda são aguardadas, deixando em aberto o real alcance dessa transformação.

A Telefónica reorienta seu foco estratégico, buscando um modelo de negócio mais exportável. A resposta inicial, contudo, parece ser uma aposta no que já funcionou em casa, numa tentativa de simplificar operações e buscar novas avenidas de crescimento em um setor cada vez mais competitivo. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka