A resposta do governo venezuelano aos dois terremotos que atingiram o país recentemente desencadeou uma crise de confiança sem precedentes para a presidente interina Delcy Rodríguez. Segundo pesquisa da AtlasIntel realizada para a Bloomberg News, a desaprovação da mandatária saltou para 63,3% nas últimas semanas, refletindo um descontentamento generalizado com a condução das operações de socorro e a lentidão na chegada de assistência às zonas devastadas.
O desastre, que resultou em milhares de vítimas e um número incerto de desaparecidos, alterou as prioridades da população. Atualmente, 45,7% dos venezuelanos consideram a realização de novas eleições uma urgência maior do que a reconstrução física do país. Esse dado sublinha o esgotamento de um modelo de gestão que, diante de uma emergência humanitária, falhou em demonstrar capacidade operacional básica, permitindo que a sociedade civil assumisse o protagonismo do resgate.
A falha estrutural do Estado
A crise atual não é um evento isolado, mas o ápice de um desgaste institucional que se arrasta desde a mudança na cúpula do poder no início de 2026. A resposta aos tremores revelou um Estado mais preocupado com o controle político do que com a logística de emergência. Relatos de voluntários confrontando militares armados em zonas de desastre ilustram a desconexão entre as prioridades do governo e as necessidades imediatas da população.
Historicamente, a Venezuela tem enfrentado dificuldades para manter serviços básicos, mas a gestão do terremoto expôs uma ineficiência que transcende a falta de recursos. Ao priorizar a segurança de suas posições em vez da cooperação irrestrita com socorristas, a administração Rodríguez alimentou a percepção de abandono, forçando os cidadãos a se organizarem através de redes informais e grupos de WhatsApp para suprir a ausência estatal.
O mecanismo da desconfiança
O mecanismo que sustenta essa crise é o contraste direto entre a inércia oficial e a mobilização comunitária. Enquanto o governo, sob a voz de Rodríguez, atribui as críticas a “narrativas fabricadas”, a realidade nas ruas aponta para uma falência de comunicação. A resistência das autoridades em permitir a entrada de equipes internacionais de resgate, exemplificada pelo episódio envolvendo o ministro Diosdado Cabello, gerou um custo político imediato e irreparável.
Essa dinâmica de isolamento estatal, mesmo sob o olhar atento da comunidade internacional e dos Estados Unidos, demonstra que a legitimidade do governo interino está erodindo. A confiança da população migrou para atores não estatais, como ONGs, grupos religiosos e a figura da opositora María Corina Machado, que, apesar de estar fora do país, mantém uma base de apoio significativa que supera a avaliação das instituições oficiais.
Stakeholders sob pressão
As implicações deste cenário são vastas. Para o governo, o desafio é conter a agitação civil sem recorrer à repressão severa, um equilíbrio delicado enquanto busca manter a cooperação com Washington. Para os Estados Unidos, o dilema reside em sustentar um governo interino que, embora transparente em suas conversas diplomáticas, perde a capacidade de governar na prática, arriscando uma instabilidade regional maior.
Para o cidadão venezuelano, a reconstrução é agora indissociável da mudança política. A urgência por eleições não é apenas um desejo ideológico, mas uma necessidade pragmática para quem percebe que o atual aparato estatal não possui a competência — ou a vontade — para liderar a recuperação das cidades destruídas.
O futuro incerto
O que permanece incerto é a capacidade do governo de sustentar o controle diante de uma pressão social que cresce à medida que as esperanças de encontrar sobreviventes diminuem. A fragilidade demonstrada nas últimas semanas sugere que o tempo de resposta do Estado tornou-se, ele próprio, um catalisador de mudanças.
Observar os próximos meses será fundamental para entender se a mobilização cívica conseguirá traduzir a indignação atual em uma pressão política efetiva por novas eleições. A Venezuela entra em uma fase onde a gestão de desastres se confunde com a sobrevivência do próprio regime.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





