Thomas Kaplan, conhecido como o maior colecionador mundial de obras de Rembrandt, adicionou mais uma peça ao seu vasto acervo. O empresário americano, proprietário da Leiden Collection, foi o comprador do quadro "São João em Patmos" (c. 1660), arrematado por US$ 9 milhões em um leilão da Sotheby's em dezembro de 2025, conforme apurado pelo The Art Newspaper. Essa aquisição marca a décima oitava obra de Rembrandt em sua coleção.

Kaplan declarou que sua motivação para adquirir "São João em Patmos" foi a preservação da obra, trazendo de volta ao "domínio público um trabalho tardio impressionante do mestre que esteve oculto por mais de um século". A adição também visa fortalecer "a narrativa central de nossa coleção", segundo o colecionador. A última vez que a pintura foi exibida ao público foi em 1923.

Histórico da Obra e do Colecionador

"São João em Patmos" possui uma história rica e complexa que remonta ao início do século XX. Em 1904, a obra estava nas mãos de um negociante americano que a atribuiu a Carel Fabritius, um contemporâneo de Rembrandt. A reatribuição ao mestre holandês ocorreu em 1913, quando o historiador de arte alemão e curador do Metropolitan Museum of Art, Wilhelm Valentiner, adquiriu a pintura por US$ 525. Valentiner a manteve em sua coleção pessoal por muitos anos, chegando a acreditar que se tratava de um retrato do filho de Rembrandt, Titus.

Posteriormente, a obra foi adquirida por Fritz Thyssen, herdeiro de uma das principais famílias industriais da Alemanha. Thyssen, que inicialmente apoiou Adolf Hitler nos anos 1920, tornou-se um crítico ferrenho do ditador no final dos anos 1930. Em 1941, ao tentar fugir dos nazistas, foi capturado e enviado para os campos de concentração de Sachsenhausen e Dachau. A pintura foi confiscada, mas restituída a ele em 1950, quando Thyssen residia em Buenos Aires, Argentina. Seu neto, Federico Zichy Thyssen, herdou a obra, que, após sua morte, foi destinada a uma fundação beneficente familiar em 2014.

A Descoberta e a Atribuição

Quando a pintura foi levada a leilão na Sotheby's no ano passado, uma limpeza de rotina revelou detalhes cruciais para sua identificação. Símbolos encontrados na obra, como uma palmeira — representando a ilha grega de Patmos — e uma águia associada a São João, levaram à atribuição do título "São João em Patmos". Arthur Wheelock, especialista em arte holandesa do século XVII e consultor de Kaplan, comentou ao The Art Newspaper que Rembrandt possivelmente utilizou seu filho Titus como modelo para a figura de São João. "A decisão de Rembrandt de pedir a Titus para posar como São João sugere que ele sentiu uma conexão subjacente entre seu afeto pelo filho e o lugar do evangelista na história cristã", explicou Wheelock.

Impacto no Mercado de Arte e Colecionismo

A aquisição por Thomas Kaplan reforça seu status como um dos mais influentes colecionadores de arte do mundo. Seu método de adquirir e, ocasionalmente, vender obras de Rembrandt, tem um impacto significativo no mercado, especialmente quando se trata de peças de grande valor histórico e artístico. A estratégia de Kaplan de "retornar ao domínio público" obras que estiveram inacessíveis por décadas não apenas enriquece sua coleção, mas também contribui para a democratização do acesso à arte, permitindo que mais pessoas apreciem o legado de mestres como Rembrandt.

No início de 2026, Kaplan vendeu um desenho de Rembrandt, "Jovem Leão Descansando", por US$ 18 milhões em um leilão da Sotheby's. Os recursos dessa venda foram destinados à Panthera, uma organização global de conservação de grandes felinos, demonstrando um compromisso filantrópico que se estende além do mundo da arte.

Perguntas em Aberto

A aquisição de "São João em Patmos" levanta questões sobre o futuro de outras obras de Rembrandt que podem estar em coleções privadas e inacessíveis ao público. Qual será o próximo passo de Kaplan em sua coleção? Ele continuará a adquirir peças de grande valor histórico, ou focará em exposições e democratização do acesso? A história da pintura, com suas atribuições e passagens por figuras históricas controversas, também merece um aprofundamento, revelando as complexas conexões entre arte, história e política.

O mercado de arte, cada vez mais globalizado e impulsionado por grandes colecionadores, continuará a observar de perto os movimentos de figuras como Thomas Kaplan. A forma como ele gerencia seu acervo e suas motivações para aquisição e venda moldam não apenas sua coleção, mas também as dinâmicas de valorização e visibilidade de obras de arte de mestres renomados. A história de "São João em Patmos" é um lembrete vívido de como a arte pode atravessar séculos e contextos, mantendo sua relevância e poder.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews