Thomaz Srougi, o empreendedor que se tornou sinônimo de acesso à saúde com o dr.consulta, iniciou seu segundo ato. Longe da escala massiva de sua primeira criação, ele agora se dedica à Carecode, uma healthtech que se define como “nativa em IA” e ataca uma dor específica e crônica do setor: a ineficiência na gestão de clínicas que resulta em perda de pacientes e receita.

O movimento de Srougi não é apenas uma mudança de CNPJ, mas um reflexo da maturação do ecossistema de tecnologia. Após construir uma operação com 6 milhões de pacientes e 300 mil atendimentos mensais, sua nova tese é que o próximo salto de valor não está mais apenas em ampliar o acesso, mas em injetar inteligência para otimizar a capacidade existente. Segundo uma entrevista concedida ao portal Startups, a Carecode já opera com 39 clínicas no Brasil e iniciou sua expansão internacional pelo México.

O playbook do segundo ato

A transição de Srougi foi calculada. Ele deixou o dr.consulta após o processo de sucessão estar encaminhado, mas levou consigo o ativo mais valioso: um diagnóstico preciso do problema. “Não trago nada da empresa anterior, além da experiência de construir clínicas do zero e observar onde elas costumam ter dificuldades”, afirmou na entrevista. A dor central, segundo ele, é o desperdício. Clínicas investem em marketing, mas perdem cerca de 40% das ligações por falta de estrutura para atendê-las. Quatro em cada dez pacientes agendados faltam sem um processo robusto de confirmação.

É nesse funil de perdas que a Carecode opera. A proposta não é um simples chatbot, mas uma plataforma de IA conversacional que, segundo a empresa, resolve entre 80% e 85% das interações de agendamento — um salto de produtividade em relação aos 10% de um sistema tradicional. A solução atua em três frentes: gestão de novos agendamentos, redução de faltas em consultas e exames, e estímulo à recorrência dos pacientes. É uma abordagem cirúrgica para estancar a sangria de receita das clínicas.

Capital e talento para um novo jogo

Para executar essa visão, Srougi montou uma estrutura que destoa do padrão. A Carecode atraiu um pool de capital de risco de primeira linha, incluindo Andreessen Horowitz (a16z), QED Investors e Endeavor Catalyst, além de um investimento-anjo de David Vélez, fundador do Nubank. O calibre dos investidores sinaliza uma aposta na tese de que a IA pode, de fato, destravar uma nova camada de eficiência na saúde.

O time também segue um roteiro distinto, formado por jovens especialistas com formação em centros como a Universidade de Chicago e o Georgia Tech. Essa combinação de experiência de fundador, capital global e talento técnico especializado permitiu à Carecode testar sua expansão internacional de forma precoce. A escolha do México como primeiro mercado fora do Brasil, baseada nas semelhanças de mercado e na proximidade linguística, demonstra uma ambição de construir uma solução com apelo regional desde o início.

A jornada de Srougi do dr.consulta para a Carecode é emblemática. Se a primeira onda de healthtechs no Brasil se concentrou em usar a tecnologia para criar escala e acesso, a nova fronteira parece ser o uso de ferramentas sofisticadas, como a IA, para trazer inteligência e produtividade a um setor que ainda opera com sistemas legados. A questão não é mais apenas se a tecnologia pode ajudar, mas com qual grau de precisão e eficácia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Startups