A fronteira da nutrição esportiva de elite acaba de ser deslocada por uma substância historicamente mal compreendida: o lactato. A startup From Lab to Field, ou FLF, revelou recentemente o desenvolvimento de um gel energético que incorpora o composto, desafiando a percepção tradicional de que o lactato seria apenas um resíduo metabólico causador de fadiga. A demanda foi imediata e agressiva, com um time do World Tour adquirindo a totalidade da produção inicial de dezenas de milhares de unidades, deixando seis outras equipes de elite sem acesso ao produto para o Tour de France desta temporada.

O projeto é liderado pelo fisiologista Aitor Viribay Morales, ex-cientista principal da equipe INEOS Grenadiers, em parceria com especialistas do Basque Culinary Center e chefs do restaurante Mugaritz. A investida busca transformar o lactato, que atua como molécula sinalizadora e combustível preferencial para músculos e cérebro, em uma fonte de energia ingerível, superando os desafios de palatabilidade que historicamente impediram sua aplicação comercial em suplementos de alta performance.

O fim do estigma sobre o lactato

Durante décadas, a ciência esportiva operou sob o dogma de que o ácido lático era o vilão da exaustão muscular. A revisão científica moderna, contudo, esclarece que o corpo humano não circula ácido lático, mas sim lactato e íons de hidrogênio. Enquanto os íons de hidrogênio contribuem para a sensação de queimação, o lactato funciona como um combustível versátil, capaz de transitar entre diferentes órgãos conforme a demanda energética. A hipótese do "lactato shuttle", formulada por George Brooks, da UC Berkeley, estabeleceu que o corpo utiliza essa substância de forma inteligente para otimizar a performance.

O desafio técnico para a FLF foi tornar esse composto digerível. Através de processos químicos e físicos ainda sob sigilo de patente, a equipe de Viribay criou uma matriz que estabiliza o lactato, permitindo sua ingestão sem os problemas estomacais que inviabilizaram tentativas anteriores. A inovação não reside apenas na substância, mas na engenharia alimentar que viabiliza sua absorção em um formato de gel, integrando-o ao arsenal de suplementação de atletas de ponta.

Mecanismo de absorção e performance

O novo gel ExoLactate combina 40 gramas de carboidratos com 5 gramas de lactato. A lógica por trás dessa formulação é a utilização de vias de transporte distintas no intestino. Enquanto o consumo exclusivo de carboidratos satura os transportadores específicos, a adição de lactato abre uma terceira via paralela de absorção energética. Isso permite que o atleta aumente a carga de combustível total sem sobrecarregar um único mecanismo metabólico, um princípio similar ao que revolucionou o uso combinado de glicose e frutose no passado.

Além da via de absorção, a dinâmica metabólica do lactato é contextual. Em intensidades moderadas, ele pode promover a oxidação de gorduras, poupando estoques de glicogênio. Em intensidades elevadas, acima do limiar anaeróbico, ele atua como um combustível de queima eficiente, sendo utilizado pelo organismo em questão de minutos, diferentemente dos carboidratos que exigem processamento hepático. Essa versatilidade torna o composto uma peça estratégica para o gerenciamento de energia em provas de longa duração.

Implicações para o ecossistema esportivo

O movimento de exclusividade por uma equipe do World Tour reflete a busca constante por vantagens marginais no ciclismo profissional. A história recente, marcada pela ascensão e estabilização dos suplementos de cetonas, sugere que o pelotão está disposto a investir pesado em tecnologias de nutrição ainda em estágio experimental. Se o gel demonstrar eficácia consistente, a pressão por regulação e acesso equitativo deve crescer, forçando órgãos reguladores a monitorar o impacto dessas substâncias na integridade competitiva.

Para o mercado de suplementos, o sucesso do ExoLactate pode abrir uma nova categoria de produtos de alta performance. A colaboração entre chefs e cientistas, exemplificada pelo trabalho com o Mugaritz, indica que a nutrição esportiva está migrando para um campo onde a gastronomia aplicada é tão crítica quanto a bioquímica. A transparência nos resultados de testes independentes será fundamental para que o mercado, além dos atletas de elite, compreenda o valor real dessa inovação.

Incertezas e o futuro dos testes

Embora os dados preliminares apontem para possíveis ganhos de tempo em subidas longas, a comunidade científica permanece cautelosa. Os testes realizados até agora, embora promissores, ainda carecem de um volume amostral que permita conclusões definitivas. O próprio Viribay reconhece que a pesquisa sobre o uso exógeno de lactato está em seus estágios iniciais, exigindo anos de acompanhamento para compreender todos os efeitos sistêmicos.

O que se observa agora é a fase de validação no mundo real, onde a imprevisibilidade do esforço em competições de alto nível ditará o futuro do produto. O mercado consumidor aguarda o lançamento oficial, previsto para o final deste ano, enquanto observadores do setor monitoram se o uso do gel será um diferencial visível nas próximas etapas do Tour de France. A ciência do esporte, como sempre, avança mais rápido que a capacidade de comprovação final.

O cenário atual coloca a nutrição esportiva em um ponto de inflexão, onde a fronteira entre combustível e intervenção metabólica se torna cada vez mais tênue. Resta saber se o lactato se consolidará como um padrão ouro ou se seguirá o caminho de outras promessas que, embora eficazes, mostraram-se mais complexas e menos universais do que a teoria inicial sugeria.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Outside — Health