O dedo em riste, o olhar severo, a cartola com as cores da bandeira. A imagem do Tio Sam convocando recrutas para o Exército americano, criada por James Montgomery Flagg em 1917, é um dos ícones mais potentes do século 20. Representa o chamado do Estado, a personificação de uma nação em guerra. Mas a figura que se tornou a face do poder federal americano tem uma origem muito mais modesta e, segundo a lenda, ligada a um comerciante de carne de Troy, Nova York.

O homem por trás do mito seria Samuel Wilson, nascido em 1766 no que é hoje Arlington, Massachusetts. Em 1789, Wilson mudou-se para Troy e abriu um negócio de processamento de carne com seu irmão. Conhecido na comunidade por sua integridade, ganhou o apelido carinhoso de “Uncle Sam” (Tio Sam).

De apelido a símbolo

A transformação de um apelido local em emblema nacional ocorreu durante a Guerra de 1812. A empresa de Wilson, E&S Wilson, conseguiu um contrato para fornecer rações de carne ao exército americano. Os barris eram marcados com as iniciais "U.S." para indicar propriedade do governo dos Estados Unidos. Os soldados de Troy, que conheciam o fornecedor, começaram a brincar que as iniciais se referiam a "Uncle Sam" Wilson. A anedota foi registrada por um jornal local, o Troy Post, e gradualmente se espalhou.

Com o tempo, a história ganhou vida própria. Embora a imagem visual que conhecemos hoje tenha sido consolidada apenas um século depois, com o pôster de Flagg, a associação do nome "Tio Sam" ao governo federal já estava estabelecida. Alguns historiadores questionam a veracidade da origem, sugerindo que o símbolo pode ter outras raízes ou que Wilson apenas popularizou uma mascote preexistente. A despeito do debate acadêmico, o Congresso americano encerrou oficialmente a questão em 1961, reconhecendo Samuel Wilson como o progenitor do Tio Sam.

A face do Estado

O percurso de Samuel Wilson a Tio Sam ilustra como símbolos nacionais podem emergir de circunstâncias prosaicas, quase acidentais. A reputação de um comerciante local, associada à logística de uma guerra, foi o suficiente para semear um mito que se provaria extraordinariamente duradouro. A figura evoluiu de um provedor confiável para a representação, por vezes intimidadora, da autoridade estatal.

O monumento a Samuel Wilson em Arlington marca o local de nascimento do homem, não do mito. A distância entre a figura histórica — um empreendedor comunitário — e sua personificação simbólica revela a capacidade da cultura de abstrair e ressignificar. O Tio Sam do pôster não é mais o comerciante de Troy; é a própria nação, com suas demandas e seu poder de convocação, olhando diretamente para cada cidadão.

Mais de dois séculos depois, a transformação de um apelido em ícone global permanece um fascinante caso de estudo sobre identidade e poder. A questão que fica é como a reputação de um indivíduo confiável pôde ser transmutada na face, por vezes austera, de um Estado-nação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Atlas Obscura