A decisão da Toyota de transferir a produção de sua picape Tacoma de Baja California, no México, para o Texas, nos Estados Unidos, acendeu um alerta na cadeia logística norte-americana. Para a Grupo México Transportes (GMXT), uma das maiores operadoras ferroviárias do país, o impacto é imediato e quantificável: uma perda de receita estimada em US$ 1,5 milhão por ano, referente ao transporte de chassis que não acontecerá mais.
O episódio, reportado pelo portal mexicano Expansión, é mais do que a perda de um único contrato. Ele serve como um estudo de caso sobre a fragilidade das infraestruturas que se tornam excessivamente dependentes de um único setor — no caso, o automotivo, que representa 72% das mercadorias exportadas por trem no México. A leitura aqui é que, na era do nearshoring e da reconfiguração de cadeias de suprimento, a proximidade geográfica que beneficia o México também o expõe a uma volatilidade sem precedentes.
A volatilidade como novo normal
Para os operadores ferroviários, a incerteza não é novidade. Executivos da Canadian Pacific Kansas City (CPKC) relatam que, desde as ameaças tarifárias da administração Trump, o planejamento se tornou um exercício de futurologia. Clientes do setor automotivo chegavam a cancelar contratos de volume em um dia, para, dias depois, solicitar o triplo da capacidade após um recuo na política comercial. "O poder de se adequar a essas flutuações tem sido um grande desafio", afirmou Linda Hernández, gerente da CPKC, ao Expansión.
Essa dinâmica transforma a alocação de ativos caros e de longo prazo — locomotivas, vagões, pessoal — em um jogo de alto risco. O que o caso da Tacoma ilustra é que a volatilidade não vem apenas da política, mas também das decisões estratégicas das próprias montadoras, que agora otimizam suas linhas de produção em escala continental com uma agilidade nunca antes vista. O fluxo de capital e produção do nearshoring é acompanhado por um fluxo de instabilidade.
Diversificar para sobreviver
As respostas das empresas ferroviárias a este cenário são distintas, mas reveladoras. A GMXT, embora admita o impacto da perda, aposta na solidez da base industrial mexicana, citando projetos como a expansão da Ford em Cuautitlán para sustentar a demanda futura. A empresa também enxerga uma oportunidade de crescimento de até 30% no transporte intermodal, capturando cargas que hoje rodam em caminhões, impulsionada pelos custos de combustível e pela insegurança nas rodovias.
Já a CPKC adota uma estratégia mais defensiva: a diversificação deliberada para reduzir sua dependência do setor automotivo. A companhia está expandindo ativamente seu portfólio para incluir carnes, frutas, grãos e outros produtos. É uma manobra clássica de gestão de risco, que reconhece que a concentração em um único setor, por mais forte que pareça, é uma vulnerabilidade estrutural.
A força da indústria manufatureira do México não está em xeque e deve continuar a ser um pilar para a logística do país. Contudo, a saída de uma linha de produção como a da Tacoma serve de aviso. A era de contratos de longo prazo baseados em plantas estáticas parece estar chegando ao fim, e a resiliência das operadoras dependerá de sua capacidade de se adaptar a um tabuleiro que muda de forma cada vez mais rápida.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Expansión MX





