A participação dos trabalhadores na renda nacional dos Estados Unidos atingiu seu ponto mais baixo desde que os registros começaram em 1947. No segundo trimestre de 2026, a fatia do Produto Interno Bruto (PIB) destinada a salários e remunerações caiu para 52,8%, uma retração em relação aos 53,6% do trimestre anterior e bem abaixo da média de 55,6% nesta década. Essa queda ocorre em um cenário de lucros corporativos recordes, com as empresas da Fortune 500 registrando US$ 2,1 trilhões em lucros em 2025, e um crescimento do PIB que superou as expectativas. A leitura aqui é que o crescimento econômico recente não tem beneficiado igualmente a força de trabalho, gerando preocupações sobre um cenário de "crescimento sem empregos" e uma economia em "formato de K", onde a desigualdade se acentua.

O Cenário de Baixa Participação Salarial

A tendência de queda na participação do trabalho na economia americana é um fenômeno complexo, atribuído por economistas a uma combinação de fatores. Raymond Robertson, economista da Texas A&M University, sugere que essa diminuição na fatia de renda "tem que ser ou ganhos em queda ou números de pessoas em queda", indicando uma mudança estrutural "em direção ao capital". Os dados de emprego corroboram essa visão: o desemprego subiu para 4,2% em setembro, e a criação de vagas em 2025 foi significativamente menor do que no ano anterior, com apenas 584.000 novos empregos, comparado a 2 milhões em 2024. A desaceleração na criação de empregos, especialmente a modesta adição de 29.000 vagas em setembro, levanta bandeiras vermelhas sobre a sustentabilidade do crescimento econômico sem um acompanhamento proporcional na geração de empregos e na distribuição de renda.

O Papel da Automação e da IA

Um dos principais motores dessa transformação é a automação, impulsionada pelo avanço da inteligência artificial (IA). Robertson aponta que a automação está deslocando trabalhadores, enquanto a produtividade continua a aumentar. Uma análise do Goldman Sachs estima que a automação por IA poderia suprimir 25% das horas de trabalho totais, com um aumento de 15% na produtividade impulsionado por IA potencialmente levando a uma redução de 6% a 7% dos empregos. Embora a IA possa criar novas oportunidades e aumentar a produtividade geral em até 1,5% do PIB até 2035, segundo uma análise da Wharton, os custos operacionais e a necessidade de requalificação da força de trabalho ainda representam desafios. A McKinsey observou que, embora 80% dos funcionários relatem que a IA os torna mais rápidos em tarefas específicas, apenas 37% das empresas veem um impacto dessa produtividade nos lucros operacionais. A dinâmica sugere que a automação, por enquanto, beneficia mais o capital do que o trabalho.

Imigração e o Mercado de Trabalho Americano

Paralelamente à automação, as políticas de imigração dos EUA também exercem um papel significativo no mercado de trabalho. Mark Regets, do National Foundation for American Policy (NFAP), argumenta que o endurecimento das políticas de imigração, promovido pela administração Trump, não apenas reduziu a força de trabalho estrangeira em 1,1 a 1,4 milhão de pessoas desde o início de 2025, mas também criou menos oportunidades para trabalhadores americanos nativos. A taxa de participação na força de trabalho para trabalhadores estrangeiros e nativos caiu no último ano. A escassez de mão de obra em certos setores pode levar empresas a reduzir operações ou a ter dificuldade em expandir, impactando negativamente a economia como um todo. A diversidade de habilidades e a presença de imigrantes podem impulsionar a produtividade e o consumo, estimulando o crescimento econômico.

Requalificação e o Futuro do Trabalho

Diante desse cenário, a requalificação da força de trabalho emerge como um componente crucial para mitigar os efeitos negativos da automação e garantir a sustentabilidade do crescimento. Investimentos em programas de treinamento e desenvolvimento de habilidades, tanto pelo governo quanto por empresas, são essenciais. A geração Z, por exemplo, tem demonstrado interesse em profissões técnicas que são menos suscetíveis à automação. Contudo, Robertson critica a falta de investimento governamental em programas de formação e requalificação nas últimas décadas. Sem uma ação coordenada para preparar os trabalhadores para as demandas futuras, o risco de um crescimento econômico insustentável, impulsionado pela concentração de capital e pela estagnação salarial, permanece elevado. A questão central é como conciliar o avanço tecnológico com a geração de empregos e a distribuição equitativa da riqueza.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune