O cotidiano de milhões de trabalhadores nos Estados Unidos não termina ao fim do expediente. Tarefas como limpar a casa, preparar refeições e cuidar dos filhos, essenciais para o funcionamento da sociedade, não geram remuneração direta nem são contabilizadas no Produto Interno Bruto (PIB). Um recente relatório do Government Accountability Office (GAO) estimou o valor desse trabalho não remunerado em até US$ 6 trilhões por ano, o equivalente a um quinto do PIB americano. Essa omissão nas estatísticas oficiais distorce a forma como o crescimento econômico, os padrões de vida e a produtividade são percebidos.

Segundo o GAO, mais de 87% dos americanos com idade acima de 15 anos realizaram alguma tarefa doméstica não remunerada em um dia típico, dedicando em média 3,72 horas a essas atividades. Economistas ressaltam que, sem essas atividades, a economia formal simplesmente não funcionaria. A Dra. Misty Heggeness, da Universidade do Kansas, aponta que, caso as famílias deixassem de cozinhar e cuidar de seus filhos, seria necessário adquirir esses serviços no mercado formal, elevando o custo de vida e reduzindo o valor real do dinheiro ganho no trabalho remunerado.

O PIB e a invisibilidade do trabalho doméstico

A ausência do trabalho não remunerado nas contas nacionais tem implicações significativas na análise do crescimento econômico. Historicamente, a entrada massiva de mulheres no mercado de trabalho a partir dos anos 1960, impulsionada pelo acesso à educação e a melhores oportunidades de emprego, foi registrada como um ganho no PIB. No entanto, esse aumento não foi acompanhado por uma contabilidade da correspondente redução do trabalho doméstico, o que, segundo a economista Nancy Folbre, "artificialmente impulsionou" a taxa de crescimento da economia. O relatório do GAO corrobora essa visão: entre 1965 e 2020, o PIB convencional cresceu em média 6,3% ao ano, enquanto uma métrica alternativa que considera o trabalho doméstico mostrou um crescimento médio de 6,1%. Essa diferença, embora pareça pequena, altera a percepção sobre o progresso econômico.

A disparidade de gênero na carga de trabalho

O trabalho não remunerado ainda recai desproporcionalmente sobre os ombros das mulheres. Apesar dos avanços na igualdade de gênero e do aumento do número de mulheres que superam a renda dos homens, elas continuam a realizar o dobro das tarefas domésticas e de cuidado em comparação com seus parceiros. O relatório do GAO indica que, entre 2021 e 2024, 54% das pessoas envolvidas em trabalho doméstico não remunerado foram mulheres, e elas dedicaram mais tempo ao cuidado infantil. Essa sobrecarga contribui para o estresse e o esgotamento, com 48% das mulheres enfrentando burnout no trabalho, contra 36% dos homens. Valorizar o trabalho não remunerado não significa incentivar o retorno das mulheres ao lar, mas sim promover uma divisão mais equitativa das responsabilidades.

Repensando a produtividade e o bem-estar

A inclusão do trabalho doméstico e de cuidado nas métricas econômicas convida os economistas a "repensar a eficiência", como sugere Folbre. Ao considerar atividades como limpeza e cuidado de pessoas como parte da produtividade geral dos trabalhadores, o conceito de eficiência se expande para além da produção no ambiente de trabalho formal. A produtividade associada ao cuidado de outros indivíduos é fundamental para a sustentabilidade da sociedade e para o bem-estar das famílias, mas é frequentemente negligenciada nas análises econômicas tradicionais. Ignorar essa dimensão do trabalho resulta em uma visão incompleta e, por vezes, enganosa sobre os padrões de vida e o verdadeiro progresso econômico.

O relatório do GAO lança luz sobre a magnitude do trabalho não remunerado e suas consequências para as estatísticas econômicas. A omissão dessas tarefas nas contas nacionais pode levar a decisões políticas e econômicas equivocadas, que não refletem a realidade vivida por grande parte da população. A contínua invisibilidade desse trabalho perpetua desigualdades e distorce a percepção sobre o que realmente constitui o crescimento e o bem-estar de uma nação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune