A Associação do Transporte Internacional por Carretera (Astic) projeta um crescimento de 3% para o setor de transporte de mercadorias por estrada na Espanha em 2026. O dado, divulgado durante a 49ª Assembleia Geral da entidade em Múrcia, marca uma aceleração importante em comparação com a expansão de apenas 0,9% observada em 2025, sendo classificado pelo mercado como um "ano bisagra" ou, em tradução livre, um ano de virada para a indústria.

O otimismo da associação baseia-se na resiliência da demanda interna, da indústria e do consumo, que devem sustentar o dinamismo do transporte doméstico. A leitura é que o diferencial de crescimento do PIB espanhol, estimado em 2,3% contra 1,2% da zona do euro, protege o mercado local das incertezas que ainda pairam sobre as exportações para outros parceiros europeus.

O peso da energia na estrutura de custos

Apesar das projeções de expansão, o setor opera sob uma pressão financeira considerável. A dependência do gasoil, que alimenta cerca de 96% da frota de caminhões, torna as empresas extremamente vulneráveis às oscilações dos mercados energéticos. Conflitos geopolíticos, como a instabilidade no Oriente Próximo, elevaram os preços do combustível em até 30% na União Europeia, atingindo um segmento onde o insumo representa mais de um terço dos custos operacionais.

Essa dinâmica de margens estreitas impõe um cenário de alta competitividade. A transição para um modelo de crescimento mais robusto exigirá não apenas eficiência logística, mas também a capacidade de repassar custos em um mercado que, embora crescente, permanece altamente sensível a variações de preço.

Mudança de comando e consolidação

O cenário de 2026 será acompanhado pela gestão de José Luis Olivella, eleito presidente da Astic para suceder Marcos Basante, que liderou a patronal por 14 anos. A transição ocorre em um momento em que o setor discute abertamente a consolidação via fusões e aquisições (M&A) e o aumento dos investimentos em infraestrutura logística e imobiliária.

A estratégia de longo prazo passa, inevitavelmente, pela redefinição da relação entre transportadoras e seus clientes. A necessidade de profissionalização e escala parece ser o caminho escolhido para enfrentar a fragmentação histórica do setor, permitindo que as empresas tenham maior poder de negociação diante dos desafios macroeconômicos.

O imperativo da transição ecológica

A descarbonização deixou de ser um tópico de longo prazo para se tornar um fator direto no equilíbrio competitivo. A secretaria geral de Transporte Terrestre do Ministério de Transportes da Espanha destacou que a renovação de frotas é um desafio complexo, exigindo novas tecnologias e adaptações de infraestrutura ainda não consolidadas.

Além da sustentabilidade, o setor enfrenta gargalos estruturais, como a escassez de motoristas profissionais e a digitalização obrigatória, exemplificada pela implementação do eCMR a partir de outubro. O sucesso do "ano de virada" dependerá da capacidade do ecossistema em integrar essas demandas regulatórias sem comprometer a viabilidade financeira das operações.

Incertezas no horizonte de 2026

O que permanece em aberto é a velocidade com que a demanda internacional irá reagir e como o setor lidará com a pressão por investimentos em veículos pesados de baixa emissão. A criação de grupos de trabalho interministeriais, como o Plano Auto Plus, sugere um esforço coordenado, mas a execução prática no dia a dia das transportadoras ainda é uma interrogação.

O acompanhamento dos próximos trimestres será fundamental para entender se o crescimento de 3% será suficiente para absorver os custos de transição. O setor entra em 2026 com um roteiro claro de desafios, onde a sobrevivência dos players dependerá menos do volume transportado e mais da agilidade em adaptar seus modelos de negócio.

A transição de liderança na Astic e a agenda de discussões em Múrcia refletem um setor que reconhece a necessidade de mudança estrutural, mas que ainda se vê refém de variáveis externas de difícil controle. O caminho para 2026 parece pavimentado, mas a jornada exigirá uma disciplina operacional que poucos setores foram forçados a adotar com tanta urgência.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España