A inauguração do ramal ferroviário que liga a estação de Buenavista ao Aeropuerto Internacional Felipe Ángeles (AIFA) marca uma tentativa tardia de corrigir o principal gargalo logístico da infraestrutura aeroportuária mexicana. Segundo reportagem da Expansión, o projeto, que demorou quatro anos para ser entregue após a abertura do terminal em 2022, busca atrair passageiros sensíveis a preço, oferecendo uma alternativa mais barata em comparação aos serviços de transporte por aplicativo.

Contudo, a existência da linha não garante, por si só, a viabilidade comercial do aeroporto. Enquanto o governo federal celebra a conclusão da obra, dados da Agencia Federal de Aviación Civil (AFAC) indicam que o AIFA operou, em 2025, com apenas um terço de sua capacidade instalada, movendo cerca de 7 milhões de passageiros frente a um potencial de 20 milhões.

O dilema entre custo e conveniência

Para o passageiro médio, a decisão de utilizar o novo transporte ferroviário passa por um cálculo estrito de custo-benefício. Especialistas do setor aéreo, como Fernando Gómez Suárez, pontuam que a demanda por tarifas baixas atrai apenas uma parcela específica do mercado, estimada entre 5% e 10% dos viajantes. A maioria do público corporativo e internacional ainda prioriza variáveis como rapidez e, fundamentalmente, a previsibilidade do deslocamento.

O desafio reside no fato de que o transporte aéreo exige uma logística impecável. A ausência de sistemas de informação em tempo real, como telas com horários precisos e frequências estáveis, coloca o sistema em desvantagem competitiva frente a padrões internacionais. Sem essa clareza, o passageiro teme perder o voo, o que acaba por anular a vantagem econômica do bilhete ferroviário.

Barreiras para a consolidação internacional

A cautela das companhias aéreas estrangeiras permanece como um obstáculo crítico. Durante anos, grupos como a Lufthansa Group destacaram a necessidade de um acesso terrestre eficiente antes de considerar qualquer realocação ou expansão de rotas para Santa Lucía. A falta de conectividade direta foi, por muito tempo, a barreira que impediu o aeroporto de se integrar plenamente às redes globais de aviação.

Além da conectividade, especialistas como Julio Zugasti, da Hogan Lovells, observam que as aerolíneas exigem um ecossistema completo para operar voos de longa distância. Isso inclui infraestrutura migratória robusta e balcões de atendimento adequados, elementos que não se resolvem apenas com a chegada de um trem. A avaliação do sucesso da infraestrutura, portanto, será um processo lento, possivelmente estendendo-se por mais de um ano.

O impacto na mobilidade e no ecossistema

O sucesso do modelo dependerá da capacidade do operador em tornar o serviço amigável e confiável. Em um mercado onde a competição com o Aeropuerto Internacional de la Ciudad de México (AICM) é acirrada, qualquer falha na jornada do passageiro — desde a espera na plataforma até a chegada ao portão de embarque — pode ser fatal para a reputação da nova rota.

A longo prazo, a integração da malha ferroviária com o aeroporto pode servir como um teste de resiliência para as políticas de infraestrutura da administração anterior. Se o trem conseguir se tornar um hábito, o AIFA poderá consolidar sua posição no tráfego doméstico, mas a conquista de voos internacionais dependerá de uma estratégia de longo prazo que vá além do transporte sobre trilhos.

Perspectivas e incertezas

O que permanece em aberto é a capacidade de adaptação do sistema de transporte às necessidades reais dos usuários. A falta de sinalização clara e a incerteza sobre a frequência dos comboios são problemas operacionais que precisam ser sanados com urgência para que o trem deixe de ser apenas uma curiosidade logística.

O mercado observará atentamente os próximos meses para verificar se o fluxo de passageiros crescerá de forma sustentável ou se o trem será subutilizado. A integração entre o transporte terrestre e a malha aérea é um desafio complexo que exige mais do que apenas trilhos; requer uma mudança na percepção de eficiência que o passageiro tem sobre o terminal. Com reportagem de Expansión MX

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