A nova ofensiva comercial do governo de Donald Trump contra o Brasil entrou em vigor nesta semana, com a imposição de uma tarifa de 25% sobre um leque de produtos que vai de máquinas agrícolas a etanol e calçados. A medida, que intensifica as tensões na já complexa relação bilateral, ameaça um volume de exportações que pode chegar a US$ 11 bilhões, segundo estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Baseada em uma investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, a Casa Branca justifica a medida citando supostas práticas comerciais desleais do Brasil. A leitura, contudo, é mais complexa. O movimento parece menos uma correção econômica — afinal, os EUA mantêm um superávit comercial com o Brasil — e mais um instrumento de pressão geopolítica, com consequências diretas para a indústria nacional.

O cálculo político por trás da tarifa

A decisão de Washington de tarifar o Brasil é emblemática. O país é o primeiro a ser alvo de uma medida do tipo após uma longa investigação sob a Seção 301. A ironia, apontada por analistas, é que a balança comercial pende a favor dos EUA, o que esvazia o argumento de um desequilíbrio prejudicial à economia americana. As justificativas oficiais, que mencionam desde o sistema Pix até o desmatamento, parecem servir mais como um pretexto para uma ação de força.

O governo americano isentou produtos estratégicos como carne bovina, café e aeronaves, numa demonstração de que a medida foi cirurgicamente calculada para pressionar setores específicos sem prejudicar interesses próprios. A seletividade reforça a percepção de que as tarifas são uma ferramenta de negociação e coerção, e não uma política comercial puramente técnica. O recado para o Brasil é claro: alinhamento tem custos e benefícios diretos.

O impacto setorial e a incerteza futura

Para a indústria brasileira, o ajuste já é doloroso. O setor calçadista, que tem nos EUA seu principal mercado externo, já revisou para baixo suas projeções de exportação para o ano. Segundo a Abicalçados, um em cada cinco pares de sapatos exportados pelo Brasil vai para o mercado americano. Com a nova tarifa, muitas dessas vendas se tornam inviáveis, ameaçando empregos e forçando uma readequação produtiva.

A incerteza é talvez o dano mais profundo. Além da tarifa de 25%, o Brasil ainda é alvo de uma investigação separada sobre alegações de trabalho forçado, que pode resultar em uma sobretaxa adicional de 12,5%. Como alertam economistas, essa imprevisibilidade afeta a confiança e desestimula investimentos de longo prazo em cadeias de suprimentos voltadas para os EUA, prejudicando a relação comercial para ambos os lados.

Mais do que o prejuízo imediato de bilhões de dólares, o custo real dessa disputa pode ser a erosão da previsibilidade e da confiança, ativos essenciais em qualquer relação comercial madura. O desafio para os exportadores brasileiros agora é navegar em um cenário onde as regras podem mudar a qualquer momento, por decreto.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney