A discussão sobre o futuro da inteligência artificial (IA) parece ter tomado rumos distintos entre as duas maiores potências globais. Enquanto o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dedicou atenção, em um discurso recente, a debater a nomenclatura da tecnologia — sugerindo a substituição de "inteligência artificial" por "Super Inteligência" —, a China avança em um ritmo acelerado na definição de suas diretrizes e na busca por liderança global no setor.

Trump argumentou que o termo "artificial" confere à IA uma conotação de falsidade, defendendo a nova denominação após consultar seus seguidores em redes sociais. Essa ênfase na nomenclatura, contudo, contrasta fortemente com a abordagem chinesa. O presidente Xi Jinping, em julho, apresentou na Conferência Mundial de Inteligência Artificial de Xangai quatro prioridades para o país e para o mundo: incentivar o desenvolvimento de código aberto, manter a IA sob controle humano, ampliar o acesso à tecnologia e construir regras e padrões internacionais.

A China não se limitou a discursos. O governo chinês publicou um plano de ação detalhado em oito partes, abordando desde o acesso à capacidade computacional e dados de alta qualidade até padrões técnicos e governança de segurança. Essa iniciativa reflete uma estratégia deliberada para moldar o cenário global da IA, ecoando a forma como o país já exerceu influência através de projetos de infraestrutura em outras áreas. A busca por disseminar capacidade de IA em países em desenvolvimento, por exemplo, pode ser vista como uma nova frente de poder brando.

É inegável que a China também enfrenta críticas. Sua abordagem restritiva à informação e à liberdade de expressão, além de uma governança de IA que pode priorizar seus próprios interesses, levanta preocupações. Da mesma forma, a política de IA dos EUA sob a administração Trump não se resumiu à questão da nomenclatura; um plano de ação de 90 pontos foi divulgado no ano passado, cobrindo infraestrutura, inovação e exportação de tecnologia. No entanto, a disparidade nas prioridades públicas é notável.

Enquanto Trump rejeitou o que chamou de "esquema globalista de controle" para a IA, a China busca ativamente estabelecer um consenso — ainda que este deva ser observado com cautela — em torno de padrões, infraestrutura e governança. A questão central, para além da semântica, reside em quem terá o poder de definir as regras e a direção do desenvolvimento dessa tecnologia transformadora. A aposta chinesa em estabelecer padrões globais e infraestrutura, enquanto os EUA se debatem com debates internos sobre terminologia, pode conferir a Pequim uma vantagem estratégica significativa na corrida pela IA.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company