O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, utilizou sua plataforma Truth Social no último fim de semana para atacar o cenário climático conhecido como RCP8.5, classificando-o como incorreto e alegando que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) teria admitido tais falhas. A declaração, que ganhou tração em veículos de mídia conservadores, distorce a natureza do trabalho científico e o papel do IPCC na modelagem climática global.

Contrariando a narrativa de Trump, o IPCC não desenvolve, controla ou é proprietário dos cenários climáticos utilizados pela comunidade científica. A instituição, ligada à ONU, atua na síntese de conhecimentos existentes, avaliando uma vasta gama de estudos produzidos por pesquisadores independentes ao redor do mundo. A afirmação de que o painel teria “quietamente ajustado” ou “admitido erros” sobre o RCP8.5 carece de fundamento nas publicações da entidade.

A natureza técnica dos cenários climáticos

Cientistas utilizam cenários de emissões para explorar potenciais futuros climáticos, baseando-se em variações no uso de energia e terra ao longo das próximas décadas. Esses cenários não são previsões, mas ferramentas para testar diferentes trajetórias de emissões de gases de efeito estufa. Publicado por volta de 2011, o RCP8.5 foi concebido para representar a faixa alta de aquecimento possível à época, assumindo um mundo sem políticas robustas de mitigação.

Os números associados aos RCPs — como 2.6, 4.5 ou 8.5 — referem-se ao nível de forçamento radiativo em 2100 (em W/m²), e não diretamente à elevação da temperatura. Ou seja, tratar o RCP8.5 como “erro de modelagem”, como fez Trump, ignora sua função original como cenário de referência de alta forçante para avaliar riscos e a eficácia de políticas climáticas.

Como os cenários são desenvolvidos

O desenvolvimento e a padronização de cenários que alimentam experimentos de modelos climáticos globais são coordenados por iniciativas da comunidade científica, como o Projeto de Intercomparação de Modelos de Cenários (ScenarioMIP), ligado ao Programa Mundial de Pesquisa Climática. Esse processo harmoniza suposições e entradas entre centros de modelagem. O IPCC, por sua vez, utiliza e avalia esses resultados em seus relatórios — ele não os produz.

Nos ciclos mais recentes, a comunidade científica atualizou o conjunto de cenários amplamente usados (por exemplo, combinações entre vias socioeconômicas e de forçamento). Sínteses independentes indicam que, com o avanço tecnológico e as políticas já implementadas, trajetórias de emissões extremamente altas — como aquelas frequentemente associadas aos cenários de forçamento máximo — são hoje consideradas pouco prováveis como “linha de base” sob políticas atuais. Por outro lado, atingir as trajetórias muito baixas de aquecimento continua exigindo cortes de emissões rápidos e profundos, possivelmente com algum período de ultrapassagem temporária das metas antes de um retorno por meio de remoções de carbono.

Implicações para o debate público

A politização de termos técnicos como RCP8.5 gera ruído e dificulta a compreensão pública sobre riscos climáticos. Mesmo que a trajetória mais extrema seja hoje vista como improvável na ausência de reviravoltas políticas e tecnológicas, sínteses recentes estimam que, sob políticas atuais, o aquecimento até 2100 permanece em torno de 2,5°C a 3°C — níveis ainda considerados críticos por cientistas e reguladores.

Para formuladores de políticas, a confusão retórica pode paralisar decisões importantes. O fato de o mundo não parecer seguir a trajetória mais extrema é positivo, mas não reduz a urgência de ações estruturais: a trajetória atual ainda aponta para impactos severos. Importa comunicar que a incerteza inerente aos modelos é uma característica do método científico, não uma fragilidade que invalida o consenso sobre o aquecimento de origem humana.

O que observar daqui para frente

O ciclo de avaliação AR7 do IPCC deve se apoiar, em parte, nos novos experimentos de modelagem climática (como os do CMIP7), à medida que estiverem disponíveis. A atenção deve se voltar para como esses cenários serão interpretados por sociedade civil e setor privado, que dependem de projeções para planejamento e gestão de riscos.

Permanece incerto como o discurso político continuará a moldar a percepção sobre a utilidade desses modelos. Transparência no desenvolvimento dos cenários e clareza sobre o que cada trajetória representa serão essenciais para evitar que a desinformação ganhe espaço em um debate que exige precisão técnica e rigor analítico.

O debate sobre a validade dos cenários climáticos não é uma revisão de “erros” passados, mas um reflexo da evolução contínua da ciência diante de novas evidências — e da tensão com a simplificação do discurso político.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Carbon Brief