O presidente Donald Trump arrecadou quase US$ 1,2 bilhão com seus empreendimentos de criptomoedas em 2025, conforme revelado por um relatório de divulgação financeira entregue ao Escritório de Ética Governamental. A cifra marca uma mudança drástica no perfil de riqueza do mandatário, cujos novos negócios de ativos digitais superaram em receita grande parte de seu portfólio imobiliário tradicional, acumulado ao longo de décadas.

Segundo a reportagem da Fast Company, o montante bilionário foi impulsionado por uma combinação de investimentos de alto calibre e uma guinada na política federal, que reverteu o endurecimento regulatório contra o setor de ativos digitais. Enquanto os lucros de Trump se consolidavam, o desempenho dos ativos para os compradores seguiu trajetória oposta, com quedas acentuadas nos valores de mercado desde o lançamento.

A ascensão da World Liberty Financial

O carro-chefe da incursão de Trump no setor, a World Liberty Financial, foi responsável por captar mais de US$ 500 milhões através da venda de tokens de governança. Paralelamente, a CIC Digital LLC arrecadou outros US$ 600 milhões com a comercialização de moedas comemorativas, os chamados "meme coins", estampadas com a imagem do presidente. Ambos os ativos foram lançados em um contexto de flexibilização das diretrizes governamentais para o setor cripto.

A estratégia de negócio, contudo, levanta questionamentos técnicos sobre a natureza dos ativos. Diferente de ações tradicionais, os tokens de governança não oferecem participação societária nas empresas emissoras, limitando-se a conferir poder de voto em políticas corporativas específicas. Reguladores alertaram previamente para a dificuldade de precificação desses ativos, o que não impediu a entrada de grandes investidores, incluindo figuras como o bilionário Justin Sun.

Dinâmicas de mercado e conflitos

O mecanismo de valorização dos ativos de Trump parece ter sido fortemente atrelado ao otimismo do mercado com a mudança de postura da administração federal. No entanto, a realidade do pós-venda revelou uma volatilidade extrema. Os tokens da World Liberty, por exemplo, registraram uma desvalorização de 80% desde o início das negociações em setembro. Da mesma forma, as moedas comemorativas, que atingiram picos de preço superiores a US$ 74 logo após o lançamento, hoje possuem valor de mercado próximo a US$ 1,68.

Vale notar que a estrutura de governança dos negócios de Trump permanece um ponto de tensão ética. Embora o presidente tenha declarado que seus filhos gerenciam as finanças, o arranjo afasta as proteções contra conflitos de interesse adotadas por seus antecessores. A Casa Branca sustenta que Trump não participa das decisões operacionais e que todas as ações são tomadas em prol do interesse público, negando qualquer irregularidade.

Implicações globais e imobiliárias

Além do setor cripto, a organização Trump expandiu suas operações imobiliárias internacionais em um ritmo inédito. Projetos nos Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Romênia e Catar geraram dezenas de milhões de dólares em taxas para as empresas do presidente. A simultaneidade entre essas transações privadas e as negociações diplomáticas oficiais, envolvendo tarifas e ajuda militar, coloca em xeque a separação entre os interesses da família e os deveres do Estado.

Internamente, o resort Mar-a-Lago, na Flórida, tornou-se um epicentro dessa dinâmica, com receitas saltando 50% em um ano. A convergência entre o poder político e o crescimento desses ativos levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo a longo prazo, especialmente considerando a dependência de investidores que mantêm interesses diretos em políticas governamentais.

O que observar daqui em diante

O relatório de 927 páginas oferece apenas uma visão parcial da saúde financeira do presidente, uma vez que detalha receitas e não lucros líquidos. A questão central que permanece é como a volatilidade extrema dos ativos cripto afetará a confiança dos investidores e se a pressão regulatória sobre o setor poderá sofrer novas revisões caso o desempenho dos tokens continue a declinar.

O mercado agora observa se a estrutura de "trust" será suficiente para blindar a administração de futuras investigações sobre possíveis conflitos de interesses. A trajetória dos negócios de Trump, marcada por uma mistura singular de política e finanças, continua a desafiar os padrões tradicionais de governança pública e privada.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company