A Casa Branca decidiu reabrir a fronteira do Arizona para a importação de gado do México, revertendo uma proibição imposta em maio de 2025 para conter a disseminação do parasita conhecido como "New World screwworm". A medida, anunciada em um momento de preços recordes da carne bovina nos EUA, é uma tentativa de aliviar a pressão sobre os consumidores.
O pano de fundo é um cenário complexo: o rebanho bovino americano está em seu menor patamar em 75 anos, e o preço médio da carne moída acumula uma alta de quase 57% nos últimos cinco anos. A leitura, no entanto, é que a decisão tem um peso político muito maior que seu potencial efeito econômico. Segundo reportagem da revista Fortune, especialistas do setor são céticos quanto a um alívio significativo e imediato nas gôndolas dos supermercados.
A conta que não fecha
A matemática da oferta e demanda explica o ceticismo. O México tradicionalmente fornece cerca de 1,1 milhão de cabeças de gado aos Estados Unidos, o que representa apenas 3% da oferta total do país. Mesmo que esse fluxo fosse restabelecido instantaneamente, seu poder para alterar a dinâmica de preços de um mercado de US$ 113 bilhões seria marginal.
Adicionalmente, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) planeja uma reabertura em fases, começando por um único posto fronteiriço. Derrell Peel, professor de agronegócio da Oklahoma State University, afirmou à Fortune que não espera "nenhum impacto mensurável nos preços do gado ou da carne em breve". A medida se soma a outra iniciativa da Casa Branca: a liberação de importação de 331 mil toneladas de carne moída sem tarifas, um sinal claro da urgência política em mostrar ação contra a inflação.
Um problema estrutural
O problema central da indústria de carne americana é mais profundo e não pode ser resolvido com importações pontuais. O rebanho nacional encolheu para 86,2 milhões de cabeças, um piso histórico, como resultado de anos de seca severa em regiões produtoras e de um longo ciclo de preços baixos que desestimulou os pecuaristas. A consequência direta é a ociosidade e até o fechamento de frigoríficos, como os anunciados recentemente por gigantes como Tyson Foods e JBS USA.
A recomposição do rebanho é um processo lento, ditado pela biologia. Uma vaca produz, em geral, um bezerro por ano. Reter fêmeas para reprodução significa tirá-las da cadeia de abate, o que pode, paradoxalmente, apertar ainda mais a oferta no curto prazo. A recuperação, portanto, levará anos, e não meses.
O movimento da administração Trump ilustra uma tensão clássica entre o tempo da política e o tempo da economia real. A pressão para apresentar soluções rápidas para a inflação é imensa, mas a realidade dos ciclos agropecuários impõe um ritmo próprio, imune a decretos. A caneta presidencial pode abrir porteiras, mas não faz o pasto crescer nem acelera a gestação do gado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





