O perfil do viajante europeu está em franca transformação, deixando para trás o modelo clássico de descanso passivo em favor de roteiros focados em experiências culturais e esportivas. Segundo o relatório 'Global Travel Confidence Index', realizado pela Ipsos para a Allianz Partners, 55% dos turistas espanhóis planejam incluir festivais, concertos ou espetáculos em seus itinerários de verão, consolidando uma mudança estrutural na indústria do turismo.

Este movimento reflete uma preferência por jornadas mais ativas e inmersivas, onde o deslocamento geográfico serve como plataforma para vivências específicas. O estudo, que analisou 11.010 participantes em mercados como Alemanha, França, Estados Unidos e China, destaca que a busca por conteúdo cultural e esportivo — este último atraindo 35% dos entrevistados — aponta para um novo patamar de exigência do consumidor global.

A ascensão do turismo de experiência

A transição do modelo de 'sol e praia' para o turismo de eventos não é apenas uma mudança de preferência, mas uma resposta à valorização do tempo livre como ativo de consumo. Viajantes buscam hoje garantias de que seus investimentos em tempo e capital financeiro resultarão em memórias tangíveis, o que explica o interesse crescente por festivais e grandes eventos culturais.

Essa mudança força agências de viagens e operadores a redesenharem seus portfólios. O turismo, antes visto como um período de isolamento, torna-se agora um exercício de engajamento social. A oferta de pacotes que combinam logística de transporte com acesso garantido a eventos torna-se um diferencial competitivo crucial para o setor de hospitalidade.

O papel do seguro na nova jornada

Com a complexidade crescente das viagens, o seguro tornou-se um item de infraestrutura básica. O relatório indica que 57% dos espanhóis já contrataram ou planejam adquirir uma apólice para o verão, motivados pela busca de tranquilidade, assistência médica e, sobretudo, proteção contra cancelamentos. A integração do seguro no momento da reserva, praticada por 52% dos viajantes, revela uma maturidade crescente na gestão de riscos pessoais.

O setor de seguros, por sua vez, enfrenta o desafio da penetração em mercados ainda resistentes. Com 25% dos viajantes declarando que não pretendem contratar apólices, o preço surge como a principal barreira de entrada. A sensibilidade ao custo, mencionada por 58% dos entrevistados, sugere que a competitividade será definida pela capacidade das seguradoras de oferecerem produtos modulares e transparentes.

Dinâmicas de distribuição e mercado

A distribuição desses serviços reflete um ecossistema fragmentado, onde seguradoras diretas, OTAs (agências de viagens online) e bancos disputam a preferência do consumidor. Enquanto as companhias especializadas detêm 28% do mercado, a ascensão das plataformas digitais e a resiliência das agências físicas mostram que a jornada de compra ainda é multicanal e altamente dependente da confiança na marca.

Para o mercado, a lição é clara: a previsibilidade é o novo luxo. O viajante que prioriza eventos culturais deseja eliminar incertezas que possam comprometer seu cronograma. Isso cria uma oportunidade para players que consigam aliar a venda de ingressos à proteção financeira, criando um ecossistema de viagem onde a experiência está blindada contra imprevistos operacionais.

Perspectivas para o setor

O que permanece em aberto é a sustentabilidade dessa demanda em um cenário de custos crescentes. Embora o desejo por experiências inmersivas seja evidente, a elasticidade do preço pode limitar a expansão desse segmento caso a inflação no setor de eventos continue a superar a renda disponível das famílias.

O monitoramento dessa tendência nos próximos trimestres será essencial para entender se o turismo de eventos se manterá como uma prioridade orçamentária ou se sofrerá ajustes conforme as condições macroeconômicas evoluam. A capacidade do setor em adaptar sua oferta comercial será o fiel da balança entre o crescimento sustentado e a estagnação.

O cenário desenhado pela Allianz Partners sugere que a indústria de viagens está se movendo para uma era onde o destino importa menos do que a agenda de atividades. Resta observar como os grandes players de infraestrutura turística se adaptarão a essa demanda por curadoria e proteção simultâneas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España