O sol beija as fachadas caiadas de branco de um vilarejo andaluz, onde o aroma de jasmim se mistura ao cheiro salgado do Mediterrâneo. Turistas, com seus celulares em punho, tiram fotos de varandas floridas, enquanto moradores locais, em um ritmo mais cadenciado, preparam o almoço. Por décadas, essa imagem foi a personificação do sucesso turístico da Espanha, um país que se orgulhava de quebrar recordes de visitantes ano após ano. No entanto, um coro crescente, agora ecoando nas vozes da patronal Hostelería de España, clama por uma transformação fundamental: o fim da «obsessão por as cifras» e o abraço a um modelo turístico que priorize o valor, a rentabilidade e, crucialmente, o bem-estar das comunidades que recebem esse fluxo incessante.

José Luis Álvarez Almeida, presidente da Hostelería de España, articula essa visão em um momento de balanço. Após um verão que se projeta superar os 96,8 milhões de turistas internacionais registrados em 2025, a questão que se impõe não é mais a quantidade, mas a qualidade da experiência e o impacto gerado. «O sucesso do setor não pode ser medido unicamente por quantos vêm, mas pelo que deixam, por como convivem e por como contribuem a melhorar a vida» dos cidadãos, defende Almeida. Essa perspectiva não é um mero ajuste de retórica; ela aponta para a necessidade de repensar os indicadores de sucesso em um setor que, embora vital para a economia espanhola, também enfrenta desafios de sustentabilidade e de aceitação local.

O Peso dos Números e a Busca por Valor

A Espanha, por muito tempo, foi sinônimo de sol, praia e multidões. A estratégia de atrair o maior número possível de visitantes rendeu frutos econômicos expressivos, consolidando o país como uma potência turística mundial. Contudo, essa corrida por recordes frequentemente obscureceu outras métricas essenciais. A recente valorização do gasto dos visitantes internacionais, que cresceu 7,8% até julho — superando o aumento de 4,6% na chegada de viajantes —, sinaliza uma mudança sutil, mas significativa. O foco começa a migrar do simples ato de receber para a capacidade de gerar receita e valor agregado. A patronal argumenta que o turismo deve ser um motor para o investimento em serviços públicos, infraestruturas e acessos, beneficiando não apenas os visitantes, mas, sobretudo, os residentes.

Essa transição para um modelo baseado em valor implica uma reavaliação das prioridades. A «Marca España», que se sustenta em grande parte pela hospitalidade e pela riqueza cultural e gastronômica, precisa ser preservada e enriquecida. Isso requer mais do que apenas atrair turistas; exige cultivar um relacionamento de respeito mútuo, onde os visitantes compreendam e valorizem a cultura, os horários e os costumes locais. A autenticidade dos destinos, muitas vezes ameaçada pela massificação, torna-se um ativo precioso a ser protegido, garantindo que a experiência turística seja genuína e benéfica para todos os envolvidos.

Sustentabilidade em Múltiplas Dimensões

O chamado por uma «sustentabilidade em tripla dimensão» — econômica, ambiental e social — é o cerne da proposta da Hostelería de España. Economicamente, busca-se garantir a rentabilidade empresarial e a viabilidade a longo prazo do setor, evitando a precificação predatória e a dependência excessiva de fluxos turísticos voláteis. Ambientalmente, a ênfase recai sobre a eficiência na gestão de recursos, a minimização do impacto ecológico e a conservação dos ecossistemas que atraem visitantes. Socialmente, o objetivo é assegurar um reparto equitativo dos benefícios do turismo entre os residentes, promovendo a inclusão e o desenvolvimento local.

A indústria hoteleira, que congrega mais de 300.000 empresas na Espanha, é apresentada como um pilar insubstituível que sustenta o emprego, a vida social e o produto local em todo o território. Nesse contexto, a colaboração entre o setor privado e as administrações públicas torna-se indispensável. A exigência de que as políticas setoriais sejam desenhadas em conjunto com a cadeia de valor e as associações hoteleiras reflete a necessidade de uma governança mais integrada e representativa, capaz de antecipar desafios e formular soluções eficazes.

Um Novo Capítulo para o Turismo Espanhol?

A discussão sobre a evolução do turismo espanhol, saindo da «obsessão por as cifras» para um modelo focado em qualidade e sustentabilidade, não é exclusiva da Espanha. É um reflexo de um debate global que questiona os limites do turismo de massa e busca alternativas mais resilientes e benéficas. A Espanha, com sua rica tapeçaria cultural e sua posição estratégica, tem a oportunidade de liderar essa transição, demonstrando que é possível conciliar crescimento econômico com preservação ambiental e bem-estar social.

O caminho para um turismo verdadeiramente sustentável é complexo e repleto de desafios. Exige um compromisso contínuo de todos os atores envolvidos: governos, empresas, comunidades locais e os próprios turistas. A questão que permanece é se a Espanha conseguirá navegar essa transição com a mesma destreza com que conquistou o mundo com seus encantos, transformando a busca por valor em um novo recorde a ser celebrado. A paisagem, banhada pelo sol, aguarda a resposta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España