O UBS BB voltou a cortar o preço-alvo das ações da Vale (VALE3), desta vez para R$ 73, uma redução de R$ 4 em relação à projeção anterior de R$ 77. Esta é a segunda revisão em menos de um mês, indicando uma crescente cautela por parte do banco suíço em relação à mineradora brasileira. A decisão, anunciada recentemente, reflete a percepção de que o mercado ainda não precificou totalmente os riscos de um ambiente operacional desafiador e possíveis revisões negativas nas estimativas de resultados da companhia para os próximos anos.

Cenário de Deterioração Operacional

A equipe de analistas do UBS BB, liderada por Caio Greiner, Myles Allsop e Arthur Biscuola, aponta que, apesar de a ação da Vale ter apresentado um desempenho inferior de 11% desde a última revisão, as condições de mercado e operacionais se deterioraram ainda mais. Segundo o relatório divulgado a clientes, o banco vê riscos relevantes de revisões negativas nos resultados em praticamente todas as frentes, com exceção da Vale Base Metals (VBM). Essa deterioração se manifesta em diversos fatores, incluindo a pressão sobre os preços do minério de ferro, o aumento dos custos logísticos e a volatilidade dos preços de frete entre Brasil e China.

Custos e Produção Sob Pressão

Os analistas destacam que a Vale tem um "excelente trabalho de proteção" (hedge) em relação à exposição a fretes e petróleo, mas os contratos de longo prazo cobrem apenas cerca de 75% das necessidades totais. Isso deixa a companhia vulnerável à volatilidade dos preços à vista, especialmente no segundo semestre de 2027. Adicionalmente, a alta dos custos de combustíveis, a valorização do real e a inflação geral pressionam os custos operacionais. O UBS BB projeta que os custos totais (all-in costs) para 2026 provavelmente ficarão no limite superior da faixa projetada pela própria Vale, em aproximadamente US$ 62 por tonelada. Embora isso represente uma melhoria frente aos cerca de US$ 65 por tonelada atuais, os analistas alertam para o risco de que os custos superem a projeção de US$ 62. Essa incerteza nos custos limita a visibilidade sobre os números de produção do próximo ano, que dependerão em grande medida das condições de mercado. O banco não descarta uma queda sequencial da produção, embora este não seja seu cenário-base.

Riscos Não Precificados e Avaliação

O UBS BB considera que o mercado ainda não precificou "plenamente" os riscos associados a um ambiente operacional "desafiador". A possibilidade de a Vale não atingir suas metas de produção e custos é uma preocupação central. Para 2027, o banco vislumbra uma ampla gama de resultados possíveis, dependendo das condições de mercado, mas espera que a companhia apresente projeções amplamente estáveis, mantendo um nível de produção mais baixo em 2026 como referência. Mesmo com a forte desvalorização recente, as ações da Vale (VALE3) "ainda não parecem baratas", segundo os analistas. Em seus cálculos, tanto em cenários baseados nos preços à vista quanto naqueles que pressupõem uma normalização dos mercados de minério de ferro e fretes, a Vale deve gerar yields de fluxo de caixa livre entre 0% e 5%. Isso sugere que, do ponto de vista da avaliação, ainda pode ser cedo para afirmar que as ações atingiram o fundo do poço.

Perspectivas e Perguntas em Aberto

A recomendação de "neutra" mantida pelo UBS BB para as ações da Vale reflete a complexidade do cenário. Embora o potencial de valorização implícito no novo preço-alvo de R$ 73 seja de 11,5% sobre o fechamento de terça-feira, os riscos apontados pelos analistas sugerem que essa valorização pode não se concretizar no curto prazo. A performance da ação na B3, com queda de 1,39% no dia e acumulado negativo de 8,17% no ano, corrobora a cautela do mercado. A volatilidade nos preços do minério de ferro, a dinâmica dos custos logísticos e a capacidade da Vale em cumprir suas metas de produção e eficiência operacional continuarão sendo fatores determinantes para o desempenho das ações nos próximos meses. A incerteza sobre a estabilidade operacional no Sistema Norte e a necessidade de um aumento expressivo na produção no quarto trimestre para atingir as projeções de 2026 são pontos de atenção.

O UBS BB, ao cortar o preço-alvo pela segunda vez em um mês, sinaliza um ceticismo em relação às perspectivas de curto prazo da Vale, mesmo com a ação já apresentando desvalorização. A análise do banco foca nos riscos operacionais e de mercado que podem impactar os resultados futuros da mineradora, questionando se a avaliação atual já reflete plenamente essas incertezas. A ausência de uma recomendação de compra sugere que os investidores podem encontrar melhores oportunidades em outros setores, ou que a paciência será uma virtude necessária para quem aposta na recuperação da mineradora.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times — Mercados