O que parecia um sonho de sucesso financeiro no Paraguai transformou-se em um pesadelo para milhões de paraguaios. O Ueno Bank, que em um período de apenas três anos (de 2023 a 2026) saltou de 500 mil para mais de 3 milhões de clientes, o que representa uma fatia expressiva da população de 6,5 milhões de habitantes, foi intervencionado pelo Banco Central do Paraguai (BCP) na última terça-feira. A intervenção ocorreu após a constatação de que a instituição não atingia o mínimo de solvência exigido, levantando o espectro de um "corralito" e gerando pânico entre correntistas e o próprio governo.

Ascensão e Expansão Acelerada

O Ueno Bank construiu sua trajetória de sucesso a partir de uma estratégia de inclusão financeira. Originado como uma financeira em meados dos anos 70, focada em pequenos comerciantes e clientes com dificuldade de acesso ao sistema bancário tradicional, a instituição ganhou novo impulso em 2021 com a aquisição pelo Grupo Vázquez. A transformação em banco ocorreu em 2023, com a licença do BCP, e a consolidação veio em 2024 com a absorção do Visión Banco. Essa expansão agressiva, que o levou a gerenciar cerca de três milhões de transações diárias, o posicionou como um gigante no cenário financeiro paraguaio, atraindo não apenas cidadãos comuns, mas também fundos públicos substanciais.

A Crise e o Fantasma do 'Corralito'

A intervenção do BCP foi motivada pela "insuficiência em seu índice de solvência por abaixo de 50% do mínimo requerido". Essa fragilidade financeira, disfarçada pela rápida expansão, levou ao congelamento dos ativos e passivos do banco. Milhares de famílias viram seus fundos inacessíveis, e o próprio Estado paraguaio enfrenta a incerteza sobre a recuperação de centenas de milhões de dólares em depósitos públicos, incluindo fundos do Instituto de Previsión Social (IPS). A situação gerou protestos e uma crise política, com a renúncia do chefe do regulador bancário e até mesmo um processo de impeachment contra o presidente do país, Santiago Peña, que teve laços anteriores com o banco.

Implicações e Incertezas

A queda do Ueno Bank expõe vulnerabilidades estruturais no sistema financeiro paraguaio e levanta questões sobre a supervisão regulatória. A velocidade da expansão do banco, aliada a possíveis conflitos de interesse, como a participação anterior do presidente do BCP e do próprio chefe do regulador em posições na instituição, exige uma análise aprofundada. A promessa do governo de reembolsar parte dos depósitos traz um alívio temporário, mas a incerteza sobre a extensão total dos danos e a capacidade de recuperação dos fundos públicos e privados permanece como o principal desafio.

Perguntas em Aberto

O episódio do Ueno Bank deixa um rastro de perguntas cruciais para o futuro financeiro do Paraguai. Qual a real extensão do rombo financeiro e como ele será coberto? Quais medidas serão tomadas para restaurar a confiança no sistema bancário e evitar novos "corralitos"? A intervenção servirá como um divisor de águas para uma regulação mais rigorosa, ou o país corre o risco de ver outros casos semelhantes no futuro? A resposta a essas questões definirá a estabilidade econômica e a credibilidade do Paraguai no cenário internacional.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka