A Ultrapar se prepara para apresentar ao mercado, em seu Investor Day, uma nova fase estratégica focada na alocação criteriosa de capital. Longe de uma corrida por aquisições, a companhia, sob a liderança do CEO Rodrigo Pizzinatto, adota o que ele chama de “capital paciente”. Nos últimos cinco anos, a empresa analisou mais de 100 transações, mas concretizou apenas 14. Essa seletividade reflete uma filosofia de crescimento orientada pela criação de valor sustentável, em detrimento de um expansionismo a qualquer custo. A lógica é clara: a Ultrapar busca expandir suas operações, mas sem a urgência de fechar negócios que não apresentem um retorno esperado ou que comprometam sua saúde financeira.
Disciplina financeira e retorno ao acionista
A postura de "capital paciente" é sustentada por um balanço significativamente fortalecido. Cinco anos atrás, sob a gestão de Marcos Lutz, a empresa iniciou um processo de revisão de portfólio, redução de alavancagem e melhoria de resultados. Hoje, a Ultrapar formaliza um guidance de alavancagem entre 1x e 1,5x dívida líquida/EBITDA para os próximos cinco anos, um patamar confortável, considerando que o indicador estava em 0,9x no balanço mais recente, uma queda expressiva frente aos 2,9x de 2021. Essa solidez financeira permite à empresa explorar oportunidades sem comprometer sua disciplina, alternando investimentos em crescimento orgânico, aquisições estratégicas e distribuição de dividendos. Caso projetos atrativos não surjam, o capital gerado será revertido aos acionistas, como ocorreu em agosto com a distribuição adicional de R$ 1 bilhão.
Alvos estratégicos e negócios atuais
Os setores de infraestrutura, logística e energia são os focos de interesse da Ultrapar para futuras alocações de capital. Pizzinatto destaca que são áreas onde a companhia tem maior potencial para alavancar a criação de valor. Os critérios para novas incursões incluem a análise de fundamentos setoriais e perspectivas de crescimento, a capacidade da Ultrapar de otimizar ativos através de sua gestão e a existência de condições adequadas de entrada no negócio. Paralelamente, a empresa continua investindo em seus negócios consolidados. Na Ipiranga, os aportes visam expandir e aprimorar a rede de postos, a infraestrutura logística e a plataforma tecnológica. Na Ultragaz, o crescimento do segmento de granel e o desenvolvimento do biometano são prioridades. A Hidrovias foca em aumentar a produtividade e a utilização de seus ativos, capitalizando o potencial de crescimento da safra de grãos. Já a Ultracargo, após um ciclo de expansão de capacidade, busca otimizar a conexão entre terminais portuários e bases internas.
Desafios e perspectivas de mercado
A administração da Ultrapar pretende demonstrar que sua transformação já se reflete nos números. O EBITDA ajustado recorrente saltou de R$ 3,8 bilhões em 2021 para R$ 9,5 bilhões no acumulado dos últimos doze meses, enquanto o ROIC, no mesmo período, mais que dobrou, de 6,9% para 17,3%. A companhia, no entanto, pondera que parte desse desempenho recente, especialmente da Ipiranga, foi impulsionada por fatores conjunturais, como a volatilidade no mercado de combustíveis devido a eventos geopolíticos, e pelo avanço no combate a irregularidades. Embora reconheça que uma parcela do resultado não seja recorrente, Pizzinatto acredita que o setor de combustíveis se beneficiará de um patamar estruturalmente melhor após a normalização dos choques temporários.
Perguntas em aberto e o futuro da alocação
O "capital paciente" da Ultrapar levanta questões importantes sobre o ritmo e a natureza do crescimento futuro da companhia. A disciplina em alocar capital, embora prudente, pode gerar expectativas quanto à velocidade de expansão em novos mercados. A capacidade de identificar e executar aquisições que realmente agreguem valor, em vez de simplesmente preencher um portfólio, será crucial. Além disso, a comunicação transparente sobre a contribuição de fatores recorrentes e não recorrentes para os resultados financeiros será fundamental para manter a confiança do mercado. A expectativa agora é observar como a Ultrapar navegará entre a manutenção de sua saúde financeira e a busca por novas oportunidades de crescimento nos próximos anos.
A estratégia de "capital paciente" da Ultrapar sinaliza uma maturidade corporativa, onde o crescimento é perseguido com clareza de propósito e rigor financeiro. O sucesso dependerá da habilidade da gestão em identificar os momentos e os ativos certos para investir, garantindo que cada movimento contribua efetivamente para a criação de valor a longo prazo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech





