A escalada do Uluru, um dos maiores monólitos do mundo e local sagrado para o povo Anangu, foi por décadas um rito de passagem para turistas na Austrália. Em 2019, essa prática foi definitivamente proibida, atendendo a um pleito histórico dos proprietários tradicionais da terra. O que parecia o fim de uma era, no entanto, marcou o início de outra: uma nova trilha de quase 65 quilômetros que convida os visitantes a contornar a formação rochosa, em vez de conquistá-la.

O projeto, batizado de Uluru Kakararra Trail, é mais do que uma simples alternativa turística. Com um investimento de US$ 18 milhões, a iniciativa liderada pela Tasmanian Walking Company em parceria com a comunidade Anangu representa uma mudança de paradigma. A tese aqui é que o empreendimento funciona como um laboratório para um novo tipo de turismo: um que busca a reconciliação cultural e a sustentabilidade como pilares de um negócio de alto valor agregado.

De conquista a conexão

Por anos, o objetivo de quem visitava o “Red Centre” australiano era claro: chegar ao topo do rochedo de 348 metros de altura. Era um turismo de conquista, que ignorava o fato de que, para os Anangu, o Uluru é um ser vivo, uma paisagem sagrada. Conforme relatado pela revista Outside Online, a visão de Brett Godfrey, cofundador da Tasmanian Walking Company, foi a de que deveria haver uma maneira de as pessoas “se conectarem com a rocha, em vez de conquistá-la”.

A ideia, que parece simples, exigiu uma década de negociações e um orçamento três vezes maior que o previsto. A criação da trilha envolveu um comitê de 13 membros da comunidade Anangu, que mapearam o trajeto para evitar áreas de sensibilidade cultural. O processo lento e deliberado, que incluiu a aprovação do conselho do parque nacional e de outras agências governamentais, é um reflexo do seu propósito: não se tratava apenas de construir uma trilha, mas de reconstruir uma relação. O resultado é um produto que troca a adrenalina da escalada pela imersão na cultura e espiritualidade do local, conhecida como Tjukurpa.

Um negócio de reconciliação

Este ato de reconciliação, no entanto, tem um preço e um modelo de negócio bem definidos. A experiência não está aberta ao público geral; é uma caminhada guiada de quatro noites, operada exclusivamente pela Tasmanian Walking Company, voltada para o que a indústria chama de “viajantes de alto rendimento”. O projeto espera atrair 2.000 desses turistas por temporada, que vai do fim de abril a setembro. A infraestrutura reflete essa exclusividade: acampamentos de luxo, refeições preparadas por chefs e um alojamento com design “flutuante”, construído com módulos pré-fabricados para minimizar o impacto ambiental.

A operação é um exemplo complexo de como o capital pode ser alinhado a pautas sociais e ambientais. A construção do alojamento exigiu helicópteros e foi desenhada sobre estacas de aço para fácil remoção ao fim do contrato de arrendamento, cumprindo as exigências do parque nacional. Produtos de banho e peças de decoração são fornecidos por artistas e artesãos indígenas. O movimento sugere um caminho onde o respeito cultural e a sustentabilidade não são apenas narrativas de marketing, mas elementos centrais que justificam e sustentam um produto premium.

O novo modelo em Uluru é um passo significativo, um que busca curar feridas históricas através de uma nova forma de interagir com a terra. Contudo, sua natureza exclusiva e de alto custo levanta questões sobre a escalabilidade e acessibilidade de tais iniciativas. A trilha Kakararra é um poderoso símbolo de mudança, mas também um lembrete de que a reconciliação, quando transformada em produto, pode criar novas barreiras, ainda que mais sutis que as cercas do passado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Outside Online