O British Museum, uma das mais importantes instituições culturais do mundo, tornou-se palco de um protesto com implicações geopolíticas neste fim de semana. Ativistas pró-Palestina manifestaram-se contra o patrocínio de uma nova exibição da histórica Tapeçaria de Bayeux pelo bilionário de hedge funds Igor Tulchinsky.
O estopim, segundo reportagem do site Hyperallergic, foi a revelação de que Tulchinsky financiou um centro comunitário em Efrat, um assentamento israelense na Cisjordânia ocupada considerado ilegal sob o direito internacional. O episódio coloca o museu no centro de um debate espinhoso sobre a origem do dinheiro que financia a arte e a responsabilidade ética das instituições que o recebem.
O dinheiro não tem carimbo?
O caso de Tulchinsky reabre uma ferida antiga no mundo da filantropia e do mecenato cultural. O projeto financiado pelo bilionário inclui uma "yurt de terapia" para residentes israelenses, que ele mesmo dedicou aos "heróis de Israel", chamando-a de "o Domo de Ferro interior de Israel". Para os críticos, ao aceitar o patrocínio, o British Museum indiretamente legitima ações em territórios ocupados.
O protesto, liderado pelo grupo Energy Embargo for Palestine, não foi um ato isolado. Os ativistas também miraram a parceria de longa data do museu com a gigante de petróleo BP, conectando a luta contra a ocupação palestina à crise climática. A leitura é que há uma pressão crescente para que instituições culturais realizem uma devida diligência mais rigorosa sobre seus patronos, cujas atividades podem contradizer valores de direitos humanos e sustentabilidade.
Sanções e a zona cinzenta
A controvérsia em torno de Tulchinsky transcende a esfera ética e entra no campo legal. O patrocínio pode violar sanções recentemente adotadas pelo Reino Unido contra indivíduos e empresas que fornecem financiamento para a expansão de assentamentos. O secretário de Relações Exteriores britânico, Ed Miliband, já havia delineado que o governo tomaria medidas contra os envolvidos em tais atividades.
Atento a essa possibilidade, o político britânico Zack Polanski, líder do Partido Verde, pediu uma investigação formal sobre o acordo entre o bilionário e o museu. O episódio força o British Museum a uma posição delicada: de um lado, a necessidade de financiamento privado para manter suas operações e exibições; de outro, o risco de ser cúmplice, ainda que passivo, de atividades que seu próprio governo condena.
O caso serve como um microcosmo de como espaços culturais estão se tornando, cada vez mais, arenas para disputas políticas e éticas. Para instituições que dependem de mecenas, a tarefa de vetar fontes de recursos torna-se mais complexa e publicamente escrutinada, forçando uma reavaliação sobre de onde vem o dinheiro e, mais importante, o que ele representa.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





