No extremo norte do Canadá, um ecossistema que levou milênios para se formar desapareceu em questão de meses. O colapso do último grande lago de plataforma de gelo (ou “epishelf”) do Ártico canadense, ocorrido em 2020 mas só agora plenamente compreendido, serve como um estudo de caso sobre a velocidade e a irreversibilidade de certas mudanças climáticas. O evento, detalhado em uma nova pesquisa na revista Scientific Reports, não foi apenas uma alteração geográfica, mas o fim abrupto de uma estrutura biológica singular.
O fenômeno ocorreu no fiorde de Milne, na ilha de Ellesmere. A análise, baseada em imagens de satélite, sensores e observações de campo desde 2011, reconstrói o fim de um sistema delicado. O lago existia graças a uma imensa plataforma de gelo que funcionava como uma barragem natural, impedindo que a água doce vinda de geleiras escoasse para o mar. Essa água mais leve se acumulava sobre a água salgada do oceano, criando um lago de água doce flutuando sobre o mar. Em julho de 2020, a plataforma de gelo Milne se fraturou, perdendo quase metade de sua área e eliminando a barreira. O lago, com uma área comparável à da ilha de Formentera, simplesmente drenou para o oceano.
Anatomia de um colapso
O conceito de um lago epishelf é em si uma lição sobre equilíbrios frágeis. Segundo o estudo, a plataforma de gelo e o lago já vinham afinando há décadas, mas a ruptura de 2020 foi o ponto de inflexão. Os dados de sensores instalados no local por pesquisadores da Universidade de Alberta e da Universidade Laval confirmaram a transformação. Em julho de 2022, dois anos após o colapso inicial, a camada de água doce que caracterizava o lago havia sido completamente substituída por água salobra do oceano.
Este não foi um processo lento de mistura, mas um esvaziamento rápido. A perda da “barragem” de gelo abriu uma conexão direta entre o fiorde e o Oceano Ártico, desfazendo em meses uma estrutura que a natureza levou eras para construir. O evento é um microcosmo de um “tipping point” climático: uma longa fase de estresse gradual seguida por uma falha súbita e catastrófica.
O ecossistema que não volta mais
Com o desaparecimento do lago, extinguiu-se também um sistema ecológico duplo. Na superfície, um ecossistema de água doce. E, abaixo da plataforma de gelo, em um ambiente de escuridão permanente, uma comunidade marinha adaptada a condições extremas, incluindo estrelas-do-mar frágeis, anêmonas e vieiras, conforme documentado em uma expedição de 2017. Todo esse arranjo biológico deixou de existir como funcionava.
A ironia é a localização. A área faz parte da região de Tuvaijuittuq, cujo nome em inuktitut significa “o lugar onde o gelo nunca derrete”. A região também é conhecida como a “Última Área de Gelo”, onde cientistas esperavam que o gelo marinho perene do Ártico resistisse por mais tempo. O colapso em um local tido como o último refúgio de gelo permanente sinaliza que mesmo as áreas mais resilientes do planeta estão atingindo seus limites.
Os cientistas consideram “extremamente improvável” que a plataforma de gelo se reconstrua no cenário climático atual. Como resumiu Jérémy Bonneau, um dos autores do estudo, “esses sistemas levaram milhares de anos para se formar e se perderam em meses. Em qualquer escala de tempo humana, eles não vão voltar”.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · El Confidencial — Tech





