Uma equipe de astrônomos detectou um colossal "rio" de gás cósmico, com mais de 1,6 trilhão de quilômetros de comprimento, fluindo diretamente para um jovem sistema estelar triplo na constelação de Órion. A descoberta, realizada com o radiotelescópio ALMA, no Chile, oferece uma nova e poderosa explicação para um dos quebra-cabeças da astronomia moderna.

O achado, detalhado em publicação no The Astronomical Journal, pode finalmente elucidar por que tantos sistemas planetários fora do nosso exibem órbitas caóticas e desalinhadas em relação às suas estrelas. A leitura aqui é que forças externas, e não apenas a dinâmica interna de um sistema, desempenham um papel crucial na arquitetura planetária.

Uma nova força em jogo

O sistema em questão, GW Orionis, localizado a cerca de 1.300 anos-luz da Terra, já era um caso peculiar. Ele é composto por três estrelas jovens e um disco de poeira e gás — o berçário de futuros planetas — dividido em três anéis distintos e desalinhados entre si. A teoria anterior para explicar essa inclinação sugeria a presença de um planeta gigante não detectado, cuja gravidade estaria "quebrando" o disco.

Contudo, as novas observações, lideradas por Maria Galloway-Sprietsma, da Universidade da Flórida, revelaram o verdadeiro culpado. O fluxo de gás, ou "streamer", origina-se da nuvem molecular circundante e colide com o disco protoplanetário. Segundo a análise, a troca de momento angular — ou energia rotacional — entre o rio de gás e o anel externo do disco é suficiente para torcê-lo e incliná-lo, gerando a configuração observada.

Da ordem ao desalinho

Em nosso Sistema Solar, os planetas orbitam o Sol em um plano relativamente organizado, conhecido como eclíptica, alinhado ao equador da estrela. Essa ordem era tida como um padrão, mas a crescente descoberta de exoplanetas revelou um cenário muito mais diverso, com inúmeros mundos em órbitas altamente inclinadas ou até retrógradas. O mecanismo que gerava tal desalinho era um mistério.

O movimento sugere que a descoberta em GW Orionis não é uma anomalia, mas sim a primeira observação direta de um processo que pode ser comum na galáxia. Se esses rios de gás forem frequentes, eles podem explicar naturalmente por que muitos sistemas planetários não terminam em configurações ordenadas, mas sim com orientações mais aleatórias. A formação planetária seria, portanto, um processo muito mais suscetível a influências externas do que se imaginava.

O próximo passo, segundo os pesquisadores, é realizar um levantamento sistemático de estrelas jovens para determinar a prevalência desses fluxos de gás. Apenas assim será possível saber se a equipe encontrou uma curiosidade cósmica ou uma peça fundamental na formação de planetas por todo o universo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Space.com